Ronaldo Duran

Por: NossaCara.com
29/08/2008 - 07:40:50

Terceiro ano colegial. Com 20 anos. Podia estar cursando Direito. Não estou e já desencanei de me martirizar. Faço o possível. Estudo que nem condenado, inclusive sábado, domingo e feriado. Sou aplicadíssimo. Ano que vem se tudo der certo chego lá.

Trampando na lanchonete durante o dia, então, sobra à noite para estudar. Ralo pra caramba. Mas vendo minha mãe e meu padrasto batalhando, eu me sinto privilegiado. Imagina, ela começou a sustentar uma família com 17 anos; com 20 anos, eu sequer contribuo regularmente com uma conta fixa. Ajudo quando posso. Minha mãe me mimou um bocado. Gasto mais com roupa, lanchonete, caderno, livros, naite.

Prometi a mim que vou me policiar e tomar juízo.

Sim, tenho colegas das várias classes sociais. Lá no Center Vale a galera se reúne quase todo fim de semana. Tudo bem há pouca alternativa. Estamos no ano de 1989 e a galera que não foge para São Paulo resta desfilar no Shopping Center Vale.

Hoje é sábado, eu tô paquerando uma gata. Mas que diabo! Tantas garotas. Difícil meus instintos poligâmicos sossegarem.

Tatiane, filha de um psiquiatra, disse que quase comete suicídio na semana passada. Eu estava lá para ajudar. A gente ficou, quase madrugada inteira, sentados na calçada de frente pro fundo do vale, lá na Cassiano Ricardo. Ela chorando e eu consolando. Dei um beijo gostoso. Fiquei até com vergonha de me aproveitar de uma pessoa num momento tão sensível. Sim, meu instinto tarado queria tocar o rostinho há meses cobiçado, mas meu senso de solidariedade me açoitara.

As meninas me chamam de cara super sensível. Gostam de conversar comigo. Dizem que sou diferente dos outros rapazes, que só pensam naquilo. Que droga, eu também penso naquilo. Contudo, ao ver uma pessoa sofrer perco o foco e quero ajudar. De volta para roda dos caras, ouço ‘ah, vai dizer que não catou a Tatiane?’. Eu tenho que confessar que não. Só apelo quando o cara insinua que sou gay. Se o cara não retira o que disse é porrada na certa. Tenho colegas gays e nenhum preconceito. Mas zoação tem limite.

Sem carro, o jeito é aceitar carona. Certo dia, Fabiana Ferro me pôs em apuro. Brigou com o namorado, e parou na minha casa e me convida para a naite. O Escort do ano, e a gente indo para a Garden Music. Dançamos como louco a noite inteira e eu evitando a paquera. Era amiga de longa data.

Nem vou falar que meu instinto me tentou, mas eu tampei os ouvidos. Ela me diz que está cheia do cara, que ele a vive chifrando e que era o fim. Ela já dissera isto uma dezena de vezes antes. E não é que o cara chega na Garden e quer tirara satisfação. Um frade procurando conciliar os pombinhos não teria tido mais paciência e empenho. Mas quando levei o primeiro soco, ah, aí meu racional foi pro brejo. Infelizmente tenho um porte físico bem avantajado. Até hoje nenhum cara me pôs medo. Mas sou receoso, vai que nas próximas venha armado ou arrume uma galera barra pesada. Aconteceu isto com o Edgar. Foi parar no hospital.

Apesar dos riscos, apesar dos contras, da grana pouca, da confusão muita, adoro sair na noite. A naite me fascina. Gosto de ir aos shows do Capital Inicial, Titãs, Ultraje a Rigor. Gosto de entrar na pista de dança, e gingar o corpo e suar e parecer ridículo e me fazer criança, e dançar, dançar, dançar a naite inteira.

*Escritor, professor, autor do livro SONHAR É BOM, VIVER É MUITO MELHOR.* Escritor, autor do romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO!. Disponível no site www.livrariacultura.com.br e www.corifeu.com.br E-mail do autor ronaldo@ronaldoduran.com
Ronaldo Duran, escritor, docente na EFCP da Fundação Casa-SP, tem vários romances.

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