
Sob a orientação da Professora Maristela G. Ribeiro, os alunos dos 2º, 4º e 5º semestres de História apresentaram, no dia 17 de maio, o I Seminário de História do Brasil do Campus 18 da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, em Eunápolis. O inusitado do seminário, segundo a Coordenadora do Colegiado de História, a Professora Vânia Rita Donadio Araújo, “está no fato de ser o primeiro na história do Campus 18 a ser apresentado totalmente pelos alunos. A Professora Maristela não chamou ninguém de fora para palestrar”.
O seminário foi aberto à comunidade e todos os que compareceram tiveram a grata surpresa de um grande resultado positivo. O campus ficou tomado de participantes, tanto da própria UNEB, como estudantes de outras instituições, que aproveitaram para estabelecer um intercâmbio com os colegas. “Foi um passo grandioso. A universidade é um lugar de troca de conhecimento e nada melhor que um seminário desse porte para reforçar isso”, sentenciou a Coordenadora do curso. Para ela, “a Universidade está cumprindo seu tripé: ensino, pesquisa e extensão”.
Formação brasileira
Das primeiras horas da manhã às últimas da tarde, três épocas históricas brasileiras foram retratadas sob seus aspectos econômicos, sociais e culturais. O primeiro grupo dedicou-se às capitanias hereditárias, tendo como figura central da apresentação o primeiro donatário de Porto Seguro, Pero do Campo Tourinho.
Para o estudante do segundo semestre, Tharles de Souza Silva, Pero do Campo Tourinho foi um herói. “Ele se desfez de tudo que tinha em Portugal e veio para ficar e não apenas tirar e ir embora”. De fato, Campo Tourinho veio para a capitania de Porto Seguro com a família e mais seiscentas pessoas e se estabeleceu na nova terra.
A saga de Tourinho e de sua família foi garimpada pelos estudantes no Centro de Documentação de Porto Seguro – CEDOC; na dissertação de mestrado da Historiadora Rosana Brito, A Saga de Campo Tourinho e no livro de Capistrano de Abreu, Capitães do Brasil. Segundo a estudante do segundo semestre, Amacelene Brito da Rocha, “a maior dificuldade foi encontrar material relativo à capitania de Porto Seguro. Existem poucos registros”.
Dentre outras informações, soube-se pela pesquisa dos alunos que: por conta das inúmeras divergências entre Tourinho e a Igreja, ele foi deportado para ter com a inquisição em Portugal e que uma determinada casa da Cidade Histórica, onde turistas compram souvenir e guloseimas, foi de propriedade da família do donatário.
Para o estudante João Portela, o papel da universidade de informar a sociedade sobre parte da história brasileira e de desmistificar lendas e mitos, foi cumprido. “As pessoas são alheias à necessidade de uma universidade pública na cidade. O seminário é um passo importante para ela se firmar em Eunápolis, mostrando sua importância para a sociedade”.
O Império foi uma festa
Com o tema: As festas do império: Retrato do Brasil, Zenália Ribeiro, Kátia Cristina Araújo e Márcio Dias, do 4º semestre, mostraram como as festas, a exemplo dos tempos atuais, eram utilizadas para, dentre outras coisas, firmar valores nacionais de um império em formação e manter o controle social.
Durante o Império, datas religiosas, populares e oficiais se misturavam e o Brasil tinha 123 festas durante um ano. Trinta e sete eram oficiais e 86 nasceram de motivação religiosa ou da sinergia entre as diversas culturas que se amalgamavam no que se tornou o povo mais miscigenado do planeta.
Para Zenália Ribeiro, não há dúvidas de que ainda hoje as festas são utilizadas para controle social. “As pessoas já eram alienadas sobre o que estava acontecendo no País. Hoje possui uma das mais perversas desigualdades sociais do planeta e as pessoas passam o ano inteiro pagando um abadá”.
Kátia Cristina abordou o carnaval, tendo como pano de fundo a sexualidade. Segundo ela, a origem do carnaval é incerta mas é certo que ele foi trazido para o Brasil pelos portugueses. No começo era uma festa de salão elitista em cuja apenas a nobreza tinha acesso. A patuléia, como se referia Pedro II ao povo, apropriou-se ao seu modo e popularizou o festejo, mesmo sem saber ao certo o que festejavam. A manifestação pública do carnaval, pelos negros, era considerada profana pelos europeus. “Perguntados o que comemoravam, os negros diziam que não sabiam e apenas queriam dançar e se divertir”, conta Zenália.
Cristina não tem dúvidas de que foi o capitalismo que deteriorou o carnaval. “Acredito que o carnaval não será totalmente elitizado, apesar de já se ver muito isso, hoje. E isso também faz parte da fantasia das pessoas, a de ostentar que podem sair em determinado bloco”.
Estadismo populismo e fascismo
O último grupo, formado pelos estudantes do 5º período: Eliane Soares, Geisha Lisboa e Fábio Pereira, traçaram um perfil de um dos mais efervescentes e conturbados momentos da história brasileira, a era Vargas.
Em que pese o grande volume de publicações a respeito dessa fase da República,
Geisha se queixou do pouco material disponível na biblioteca da Universidade, o que dificultou a pesquisa, mas nem por isso tirou o brilho da apresentação.
“Pesquisamos em livros e internet. Houve dificuldade de fontes, principalmente na biblioteca da universidade e a questão de ser uma turma do noturno e os colegas terem pouca oportunidade de se encontrar em outros horários, porque todos trabalham”, conta a estudante.
Enquanto Geisha se encarregou de traçar o perfil psicológico do gaúcho de São Borja; filho de um militar estancieiro e que promoveu a definitiva migração do Brasil rural para o espaço urbano, Eliane tabulou suas pesquisas nos aspectos políticos, desde o Brasil Café com Leite à República Nova, inaugurada por Getúlio e Fábio se deteve no enquadramento da cena cultural do Brasil de então.
O cuidado dos estudantes em não apresentar nenhum desses aspectos como fatos estanques, ofereceu aos presentes a oportunidade de compreender como todas as conjunturas políticas, sociais, econômicas e culturais perpassaram pelo perfil psicológico daquele que foi, a um só tempo: estadista, populista e fascista.
Segundo a professora Maristela o seminário superou as expectativas tanto dos alunos como também dos ouvintes, apostei nos alunos, porque acredito que o conhecimento só se adquire no saber fazer.
Texto: Guilherme Ferreira
Fotos: Guilherme Ferreira