Aldeamento: um capítulo da nossa História pouco conhecido

Por: NossaCara.com
15/09/2010 - 00:23:34

Por: Teoney Guerra

Cerca de 3.500 *indígenas vivem hoje nas 11 aldeias estabelecidas sobre a área de ocupação tradicional Pataxó, cujos grupos contemporâneos são produto da reunião de vários grupos distintos, dentre os quais os Maxakali, aldeados em 1861 entre as barras dos rios: Caraíva e Corumbau, na região de Porto Seguro.

Segundo estimativas, quando da chegada dos portugueses, a população indígena na área que forma hoje o extremo sul da Bahia era de 1 milhão* de habitantes. Pela ocasião da chegada de Cabral, os indígenas descritos por Caminha eram os Tupiniquim, que eram parte do grande tronco Tupi-Guarani, que, naquela época, dominavam toda a costa, desde o sul até o Rio Grande do Norte.  

Para compreender o que foi esse “aldeamento”, ou seja, a permanência desses povos, restrita quase que exclusivamente na área entre os rios: Caraíva e Corumbu é necessário fazer uma retrospectiva histórica, tendo por base documentos oficiais e relatos de viajantes, entre eles alguns naturalistas, que remontam a vários séculos.

Segundo uma hipótese consagrada em relação aos grupos indígenas do que hoje é o extremo sul da Bahia, enquanto aquela população Tupi na faixa costeira foi rapidamente dizimada pelos colonizadores portugueses, outros grupos que viviam na faixa mais afastada do litoral –os “sertões de dentro”, e “sertões do Leste”- resistiram até o início do século XIX, quando sucessivas campanhas militares dos governos colonial e provincial os reduziram a núcleos costeiros. Alegavam as autoridades que o atraso –econômico- das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo era devido à presença indígena. Assim, consideravam necessário afastar esse impedimento.

A instituição do Diretório dos Índios, no ano de 1758, transferiu para as autoridades civis o controle sobre as aldeias, até então administradas por missionários. Entretanto, no início do século seguinte, esse Diretório foi extinto. As ações de “desinfecções dos sertões” para a colonização do interior passaram a serem feitas por meio do combate e escravização dos índios. Em 1808 foi decretada Guerra Justa contra os botocudos no Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia; a partir de 1810, deu-se início à penetração e povoamento das margens dos rios: Doce e Jequitinhonha. Na primeira metade do século XIX, índios Pataxós atuavam como soldados no quartel de Óbidos, no rio Itanhém, e também no quartel dos Arcos, ou da Cachoeirinha, no rio Jequitinhonha.

Concluindo essas ações, no ano de 1861, deu-se o “aldeamento” dessas nações indígenas. Visando “colocar os índios num sítio onde, liberando as florestas da vila do Prado para colonização, permanecessem acessíveis a uma catequese que os transformasse em reserva de mão-de-obra (Agostinho, 1980: 23), além de conter os freqüentes conflitos entre regionais e índios, em situação de competição econômica”. Desde essa época, os Pataxós ocupam, de modo ininterrupto e inequívoco, a área em que o IBDF criou o Parque Nacional do Pau Brasil, em 1943. 

A presença de alguns grupos indígenas fora dessa área deu-se recentemente, atendendo necessidades da indústria turística. Um exemplo é a ocupação indígena na Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália. No início do boom turístico, na década de 70, como a ausência de descendentes dos primeiros habitantes dessas terras não dava características que o turismo exigia, a Prefeitura daquele município mandou buscar algumas famílias dispersas na região do Monte Pascoal, mesmo contra a vontade da Funai, instalando-as na Coroa Vermelha.

* dados da FUNASA (Fundação Nacional do Índio) de agosto de 2004, combinados com dados levantados pelo Grupo de Trabalho (GT) de Revisão dos limites da TI Barra Velha e Identificação de Corumbauzinho – MJ/Funai 

Texto produzido a partir de pesquisa feita no Relatório de Fundamentação Antropológica – GT de Revisão de limites da TI Barra Velha e Identificação de Cobumbauzinho – MJ/Funai - Portaria nº 376/PRES, de 16 de março de 2005. Com informações contidas na Sinopse do livro: 500 Anos do Brasil – REDESCOBERTA, ainda inédito, de autoria do escritor Roberto Ribeiro Martins.

Do ponto de vista dos rituais, após cinco séculos de contato com a sociedade nacional e a religião Católica, os Pataxós celebram, anualmente, as festas: Reis (6 de janeiro), São Sebastião ou Puxada de Mastro (20 de janeiro), Santo Antônio (12 de junho), Cosme e Damião (27 de setembro), além do Dia do Índio (19 de abril). Esta última data é altamente politizada. Cada aldeia prepara sua festa. Os índios pintam seus corpos, cobrem-se de adornos de penas e sementes, bebem cauim de mandioca, come-se moqueca na folha de bananeira, entre outras iguarias, e dançam o awê (dança bastante parecida com o toré dos Fulniô).

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