
O noivado acabou 
Juro por tudo que é mais sagrado que eu queria ser diferente. Independente, liberta da necessidade de me sentir cobiçada pela libido masculina. Desculpa, tentei pacas, mas me vejo quase impotente. Não importa como você seja, sempre há algo que deseja mudar e percebe que todo o esforço é em vão. Pense na pessoa que fuma cigarro, todo mundo fala que prejudica a saúde, e o sujeito lá que nem chaminé o dia inteiro. Ou aquele que fica sem se alimentar, mas não abre mão da maconha. Enfim, precisa agarrar-se a um vício para suportar a pesada caminhada pela vida.
Tá! Há os que têm determinação, força de vontade imbatível. Conheci um escritor que era o maior pinguço lá em Berkeley University, e não produzia sem mamar meia caixa de cerveja. Aí, de uma hora para outra, viu que estava lhe fazendo mal e largou o vício. Sim, vício, pois dissera que estava lhe comendo o estômago, neurônio... Sempre terá um país campeão no meio de centenas de outros perdedores numa copa do mundo.
Desculpa o pessimismo. No geral sou uma garota super gentil e entusiasmada. É que perdi uma pessoa que amo muito, e por babaquice. Tenho o terrível defeito de me produzir, vestir uma calça que realça meu bumbum e barriguinha em forma, uma camiseta que aprecia meus seios, meu sapato plataforma ou salto alto. A maquiagem nada do tipo anos 80, mas dá o que falar. Sou da classe média alta paulistana, portanto, a gente tem um padrão. Nem tão vulgar nem tão cafona ou conservadora. Minha classe dá pouco espaço para os exageros.
Costumo carregar na maquiagem, na roupa, sempre que meu ego desce a escada da auto-estima. Aí quero provar que ainda estou por cima. Nesse país de jovens beldades, aos 26 anos como eu, é beirar à deprê. Uma pessoa esclarecida, como meu psicólogo, me diria que eu preciso me respeitar mais, me valorizar. Semana passada voltei de Londres. Lá é ideal. As mulheres estão abaixo do nosso padrão corporal, e sempre que fico pra baixo, vou pra Londres. No Brasil as mulheres são muito competitivas, e isto estressa. Claro que há prazer em se exibir, mostrar o corpinho sarado e bombar na balada, mas que estressa, ah, estressa.
Está notando, vai ver o meu noivo tenha razão em romper comigo. Eu penso muito em mim. Me desculpa gato. Não faço por mal. Talvez eu seja vítima dessa manipulação da forma ideal feminina. Mas quando passo em frente de um espelho de carro, de vitrine, e vejo disfarçadamente meu traseiro, que prazer saber que estou com tudo em cima. Não comento das vezes que os caras passam assoviando, buzinado. Fariam a mesma coisa com um poste de saias. O que me interessa é minha auto-estima. Claro, o macho elogiando, conta, mas não é tudo.
E meu noivo ficou deprimido. Humilhou-me, xingando-me de narcisista. Eu chorei, fiquei muito tensa, sentindo-me a pior criatura sobre a Terra. Eu queria ser diferente. As pessoas podem me xingar de loira, de superficial, usar desses clichês baratos, mas sabemos onde nosso calo dói, e admito que nem sempre o que acho errado em mim eu consigo mudar. Espero que o Guido ache uma garota legal; menos preocupada em aparecer, em esperar elogios, assovios atrevidos ou cantadas recatadas. Ele é um cara super legal, estilo nerde Bill Gates e trabalha no Banco Central do Brasil. Merece uma pessoa que o valorize.
* Escritor, palestrante, escreve semanalmente neste jornal. Blog do autor www.escritorronaldoduran.blogspot.com