
O lado do muro da sede do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes - DENIT de Eunápolis, virado para a Avenida Santos Dumont, possui um sortido e colorido comércio de bolsas, bonés, prendedores de cabelos, roupas, óculos, cintos, carteiras, brinquedos, entre o outros produtos.
Os comerciantes das 32 barracas de lonas azuis e amarelas somam-se aos outros mais de 30 milhões de trabalhadores brasileiros, segundo dados do IBGE, que vivem do comércio informal. Na maioria das barracas vendem-se confecções trazidas da maior feira do País, a de Caruaru, em Pernambuco.
A cada dois ou três meses, os comerciantes investem entre mil e dois mil reais em
mercadorias sem o conhecimento da Receita Estadual ou da Municipal. Por ano, essa pequena parte do comércio informal de Eunápolis pode movimentar aproximadamente mais de 380 mil reais.
Elmo Santos trabalha na calçada há cinco meses, com confecção infantil, principalmente, que traz de São Paulo. Reclama que o movimento acabou junto com o verão: "Os melhores meses de venda são julho e dezembro".
Neuza Maria Alves vende bolsas desde que Gediel era prefeito. Já trabalhou com roupas e não vê diferença na dificuldade. O preço das bolsas que traz de Vitória da Conquista, segundo ela, varia de R$ 20,00 a R$ 25,00. Mesmo com um volume baixo de vendas, Neuza tem dúvidas se trocaria o comércio por um emprego que pagasse um salário mínimo.
João Palmeira Alves foi trabalhador rural por 60 anos, antes de estabelecer, há 10, seu comércio na calçada para sustentar parte de seus 10 filhose alguns netos, que ainda estão em casa. O valor das peças que traz de Caruaru varia de um real a R$ 20,00. João acredita que o grande número de pessoas no mercado informal se deve à Veracel, que comprou as terras dos pequenos trabalhadores rurais e os jogou na periferia da cidade. "Se eu tivesse condições de ter um pedaço de chão, eu largaria isso", desabafa.
A experiente Joanez Alves Costa Avancini, que há 15 anos trabalha vendendo confecções também está desiludida com o comércio informal e trocaria o atual trabalho por um emprego que pagasse um salário mínimo. "Há um ano que o movimento do comércio despencou e tudo está parado".
Sandro Costa é um ex-proprietário de loja de sapatos que adquiriu sua barraca na
calçada por R$ 200,00. Vários foram os fatores que levaram Sandro a fechar sua loja na Av. Santos Dumont, entre eles, a alta carga tributária. "Quando se compra sapatos, você é obrigado a recolher 25% do valor comprado antes mesmo de receber a mercadoria". Sandro disse que a isso, somam-se aluguel, funcionários, telefone e luz. Não se arrepende de há três anos e meio ter trocado a formalidade pela informalidade e não troca o comércio por um emprego de um salário mínimo. "está devagar, mas há dias que numa manhã vendo meio salário mínimo".
O Secretário de Infra-Estrutura de Eunápolis, José Carlos Cruz de Souza, disse que a revitalização do DNIT este prevista para assim que o espaço se tornar de propriedade municipal. No início de sua gestão, o prefeito Robério afirmou, em várias ocasiões, que as negociações entre os governos Estadual e Federal já estavam em fase de finalizações para que o DNIT passasse à responsabilidade da prefeitura de Eunápolis. José Carlos também afirmou que, "não é tirando os camelôs de onde eles estão para um lugar onde não passa ninguém, que vai se resolver o problema".
J. S. tem 16 anos e desde o dia 29 de fevereiro é o mais novo vendedor de CDs e DVDs piratas, que carrega em um caixote sobre rodas. "Sou de Itapetinga, onde também não consegui trabalho e estou aqui há dois anos procurando emprego e não encontro". J.S. chegou a Eunápolis com a mãe e o padrasto, que teve quer ir embora porque também não encontrou trabalho. A mercadoria custa cinco reais e ele recebe de dois a três reais de comissão, além de R$ 100,00 fixos, por quinzena.
Elismar Rodrigues dos Santos vende salgados há 14 anos, que ele acondiciona em uma caixa de isopor e carrega em sua bicicleta. Segundo Elismar "passei cinco anos em Belo Horizonte, onde trabalhei como porteiro". Voltou com esperança de se empregar na Veracel, mas foi convencido pelos fãs de seus salgados e pela realidade da falta de empregos, a voltar à velha atividade. Elismar vende 100 salgados por dia a um real, cada.
O mercado informal de Eunápolis é vasto e variado. Apesar disso, não há dados oficiais sobre o que esse mercado movimenta na economia local.
Guilherme Ferreira da Silva
guilherme.ferreira.silva@gmail.com
Fotos: Urbino Brito