
Enquanto a violência é banalizada em alguns canais, ela é maquiada com muita fantasia em outros. Se for pra falar de problemas reais, deveriam utilizar fatos reais e não um mundo mágico inexistente.
Já escutei algumas vezes que as novelas é a arte imitando a vida real. Será? Muito bom se tudo fosse como as novelas: previsível, certeza de um final feliz e que todas as pessoas ruins não vão se dar bem. Imaginar que aquilo é baseado no seu cotidiano é difícil. Algumas vezes eu identifico uma coisa que foi ao noticiário nacional expressado na teledramaturgia, mas como sempre é muito vago, superficial e insosso.
Se os jovens fossem como os da malhação, novelinha de uma década, o mundo poderia ser melhor, mais calmo e talvez mais chato. “Jovens” (na maioria atores de 20 a 25 atuando como se tivessem 16 e 17 anos) que só se preocupam em estudar, salvar o mundo, andar de skate e ir ao Gigabyte tomar suco de abacaxi com hortelã ou graviola com goiaba. Ninguém perde de ano (exceção de poucos personagens que tinha de repetir o ano para justificar uma pessoa com aparência de tão velha numa escola de segundo grau), ninguém sai pra balada e ninguém tem outros amigos alem os da escola. Tem gente que esteve na pseudo-novela por longos quatro anos e não pegou ninguém, só um jovem que esteja em um mosteiro bate esse recorde.
Se eles viajam arrumam sempre uma “aventura” ao estilo comercial do toddynho; impedir corte ilegal de madeira, que seja para salvar trabalhadores escravos ou evitar a poluição de rios. Malhação me lembra, às vezes, o desenho animado muito famoso no inicio dos anos 90, Capitão Planeta. Aquele dos jovens unidos para salvador o mundo “A força é de vocês!”.
Pior é a novela das oito, tenta dar lições de moral e valores de conduta de uma forma totalmente absurda. Começando que a historia é passada em um ambiente inteiramente e propositalmente fantasioso. Uma favela onde tudo é lindo (como diria Caetano Veloso) comandado por um ditador e garanhão (como todo personagem de Antonio Fagundes) só fica falando Êpa, êpa, Êpa e vive rodeado de “pau-mandados”. Sem contar o “peixeiro” que mais parece dono de jogo do bicho. Lá não existe guerra de facções, não existe trafico, coisas que infelizmente acontece na vida real e deveria ser ao menos mencionada para mostra a classe media (daí pra cima) que a violência existe, que as comunidades pedem ajuda e pessoas morrem lá. Infelizmente a violência só e lembrada quando bate na porta dos bem de vida. Seria uma proposta “abre-olhos” da população, mostrar a realidade sem banalizar a violência.
E lembrar que no roteiro da novela, tudo começou em uma reivindicação de moradores sem moradia que constrói uma comunidade do nada. Esforço digno, porem acontecimento impossível. No mínimo a tropa de choque estaria a postos impedindo que eles invadissem terrenos para construir mais uma favela, coisa que o governo não gosta. O movimento foi tão fácil e rápido que pode até inspirar o movimento sem terra a invadir um latifúndio qualquer e construir um “fazendão” onde todos possam morar. Ou o movimento Sem Teto se reunir e criar um município onde todos têm casa. Na novela é fácil é só chegar, montar e morar. Na vida real a coisa é mais tensa e os seres-humanos surpreendem muito mais que possa imaginar. E a maioria de governantes não estão disposto a criar alternativas inteligentes e humanas que melhore a vida das pessoas das comunidades e diminuir seu sofrimento.
“No calor da hora um ex-prefeito carioca propôs um muro ao redor da rocinha. Vocalizou a fantasia mais perversa, a um só tempo óbvia e recalcada, do imaginário coletivo. Inaugurou a linguagem publica dos muros, libertando os fantasmas da adaptação que a cidade cultivava em segredo, envergonhada. Daqui em diante, os espectros da separação vão nos assombrar a luz do dia.” ( Trecho do Livro Cabeça de Porco - Luiz Eduardo Soares, Mv Bill e Celso Athayde)
Não quero dizer que esse tipo de mundinho é ruim, nem bom. Mas se é pra copiar, copia direito. Não deveria tratar o telespectador como uma criança que assiste Teletubbies. Isso é ofender toda uma nação, já que a emissora que divulga essas novelas é detentora dos maiores índices do IBOPE.