Capimbará. O Ambientalista Solitário

Por: Redação
26/06/2012 - 09:39:26

Neste final de semana fomos a Santa Cruz Cabrália visitar e entrevistar o índio Pataxó Capimbará Alves, 50 anos de idade, autodidata em ciência ambiental.

Capimbará, feliz e sorridente, nos recebeu em sua casa, onde vive com sua mulher e filhos. Antes do inicio da entrevista, nos deu um exemplar de revista de Brasília, circulação nacional, cuja ultima edição traz na capa, uma linda foto dele e uma excelente matéria acerca do seu trabalho magnífico.

A revista, para se ter idéia do seu alcance, é distribuída por todo o pais e já teve como capa, dentre outros, o famoso Cacique Raoní, que luta hoje contra o poder dos que querem destruir o Rio Xingu com a construção da usina de Belo Monte.

O índio, vóz mansa e firme, falou enquanto sua dedicada mulher e sua filha nos serviram um almoço farto com peixe.

Com ele,  um conhecido empresário da região que a alguns anos, sempre que vem a Porto Seguro o visita, deixando doações de extremo valor a sua causa. O empresário discreto preferiu ter seu nome omitido.

CAPIMBARÁ QUEM É VOCÊ?

Com orgulho um índio, da etnia Pataxó, herança genética dos que aqui estavam quando Cabral apontou sedento e faminto em nosso quintal, a praia linda onde foi rezada a primeira missa.

QUAL O SEU TRABALHO HOJE?

Me desdobro em duas atividades. Das 07h00min horas até 14h00min sou porteiro de escola, a parti daí, até que minha família me tire do trabalho que amo, me dedico de corpo e alma ao estudo e ao trabalho ambiental, ora na mata, ora em nosso viveiro, no fundo de minha casa, onde criamos mudas nativas da mata atlântica.

E O RESULTADO DESTA PRODUÇÃO?

O resultado é o meu agradecimento a mãe natureza e ao nosso Divino Criador, que tudo fez, tudo controla e nos deu, como filhos diletos, o dom de cuidarmos de sua obra maior: O Planeta Terra, que nós, humanos, dotados de Inteligência, estamos destruindo de forma rápida e irreversível.
Já plantei e distribuí em doação em torno de cinqüenta mil mudas, desde que iniciei minha missão em 2005

A QUEM VOCÊ JÁ DOOU SUAS MUDAS?

A um leque extenso de órgãos e pessoas, dentre elas, escolas e aldeias da região, o governo do estado, prefeituras e pessoas que nos visitam, vindo de longe, Rio, São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul e Paraná, dentre outros.

COMO COMEÇOU O SEU TRABALHO?

Ao ver o meio ambiente sofrendo e se transformando rápido, sem que ninguém entendesse os riscos para nossos herdeiros, nossas autoridades se omitindo de forma vergonhosa e aberta, entendi que tinha uma missão que era deixar para o futuro, meu legado, usando o conhecimentos herdado já ao nascer, manifestado desde criança pelo amor incondicional a natureza em todas suas formas e expressões.

ONDE APRENDEU O QUE SABE?

Com meu avô Macuco Pataxó, e no dia a dia, observando a natureza, os animais, os córregos, o mar e as matas, então fartas e abundantes, hoje minguantes, devastando o mundo todo.

Iniciei então, estudos visando aprender um pouco mais do que sabia, me preparando para vencer meus medos e bloqueios, levando de inicio, às crianças meus conhecimentos através de palestras e visitas delas ao viveiro.

QUEM TE APOIA NESSA OBRA?

Pouca, muito pouca gente. Agradeço a minha mulher, meus filhos, um suíço que durante algum tempo nos enviou alguns recursos e em especial, ao amigo aqui presente, que hoje nos visita para nos ajudar a iniciar nova etapa de trabalho, ampliando o viveiro atual, construindo novos viveiros, e nos fornecendo ferramentas e insumos básicos.

Me entendo como pedinte, pois já bati em fortes portas pedindo com humildade, pás e enxadas velhas, terras, sacos plásticos, jamais mais tendo sido atendido em minhas reivindicações, pequenas para quem tem fartura, grandes para quem tinha que dar de comer a pais, mulher e crianças visto que sempre fomos um pouco perseguidos e abandonados a própria sorte.

E O TEMPO DEDICADO AO TRABALHO É SUFICIENTE?

Não. Curto demais, visto que a maior parte do tempo trabalho para sustentar a família. Sonho com o dia em que terei tempo integral para me dedicar a minha missão ambiental. Um grande sonho, mas sabendo que “O homem é do tamanho do seu sonho maior”, espero que este seja o meu caminho, o meu resultado.

COMO É O DESENVOLVIMENTO DE SEU TRABALHO?

Complexo e difícil, mas gratificante ao extremo.

Vou ao mato para catalogar, estudo e anoto tudo, tiro mudas pequenas e sementes, fartas na floresta. Planto, acompanho o crescimento, como se cada pequena muda fosse mais um filho, mais uma benção divina.

Ainda saio pela região sempre com pouco dinheiro, varias vezes só com o do ônibus. Demoro, perco tempo, mas não me recuso a deixar a família para palestrar para crianças e adultos, professores e alunos.

Ainda recebo e convido pessoalmente, crianças e adultos que nos visitam. Pouco tempo. Muito trabalho, mas, como resultado,  muita paz na alma com o sentimento do dever cumprido a cada dia quando cansado, me deito.

ONDE JÁ PROFERIU PALESTRAS?

Deveria ter documentado meus movimentos, pois já fui a muitos lugares.

Já palestrei na FACDESCO em Cabrália, no IFBA em Porto Seguro, em escolas de Cabrália, Porto, Eunápolis, Guaiú, Teixeira de Freitas, em cidades mineiras e muito mais.

O QUE FALA AOS OUVINTES?

Sobre educação ambiental e cultural, preconceitos, desperdícios de água, de energia, sobre o lixo jogado no lugar errado, matando o verde, os animais e peixes que ingerem este lixo, enfim, mostro que meio ambiente não é só mato, não é só o verde, é agua, energia elétrica, gás, animais, plantas e pessoas, tudo em uma mistura equilibrada e natural, onde nada do citado tem maior ou menor importância.

COMO RECEBEM SUAS PALAVRAS?

Pensam muito, ouvem atentamente. Falo sem pressa, com amor e carinho e no final sou sempre bem aplaudido. Aplausos que me trazem mais alegrias e se transformam em mais energia. Falo sem pensar, sem medo de errar, não penso na melhor forma de responder ao que me questionam, pois sinto que Deus colocou tudo pronto em minha mente. Muita coisa boa, nada ruim tenho ainda muito espaço para informações.

E PERSPECTIVAS FUTURAS?

Que o insucesso visível da confuso Rio+20 seja no futuro, objeto de estudos para mudanças do cenário caótico do planeta, sujo, poluído, nascentes e rios morrendo. Que a vida real das autoridades mundiais deixe de ser uma grande jogada político-marqueteira, fazendo-os olhar os seus filhos e netos e colocar nosso globo terrestre na frente deles.

Enfim, que todos tenham um pequeno êxito, uma pequena atitude, um lampejo de visualização dos seus herdeiros no mundo que construíram pensando no seu legado material, deixando de lado, o espírito, a verdade, a luz.

COMO SERÁ A TERRA EM VINTE ANOS?

Minha visão é turva. Dependemos totalmente dos poderosos e dos políticos por eles manipulados, omissos e descompromissados.

TERÁ FORÇAS PARA IR ADIANTE?

Aos cinquenta me sinto uma criança. Luto hoje de forma solitária, mas vendo meu trabalho, como as sementinhas surgindo, frágeis, mais com perspectivas futuras bem amplas.

A natureza é forte. Não morrerá jamais, como nós humanos, apenas nos penalizará, como tem nos penalizado a algum tempo, com desarmonia, chuvas, secas, enchentes, mortes e o desaparecimento de sua infinita beleza, mostrando sua força no Japão, nas Américas e em todos os lugares que o homem mexe.

E O RIO BURANHÉM?

Neste local que fica na segundo sede da fazenda do finado Domingos Batista onde se faz a travessia para ir para o córrego do Itu a 40 anos atrás passava com o cavalo nadando ou de balsa hoje vejam onde a água bate nas canelas do cavalo e vejam no detalhe o cachorro atravessa andando

Morrendo lentamente, mas de forma visível a quem o olha.

Suas matas ciliares já morreram. Está sofrendo, perdendo seus tesouros, suas nascentes e afluentes.

Como um político, que depende dos votos dos pequenos para se eleger, e não de seus cacifados e letrados ministros, e auxiliares, o meio ambiente, os rios, necessitam dos pequenos que são mortos a cada minuto. Rio só cresce com pequenas nascentes. Veja ainda o Rio do Frade. Quantos riachos, quantos e incontáveis pingos d’água pura que se unem e fazem um gigante.

Porto Seguro era no passado remoto, conhecido por Rio do Buranhém, nome dado pelos antigos porque suas margens eram tomadas pelo "Araçá Buranhém", hoje considerado extinto, mas eu tenho uma muda sobrevivente e no futuro, crescida, gerará novas e lindas arvores do ARAÇA BURANHÉM.

O QUE FALARIA AO MUNDO?

Pediria juízo e respeito a mãe natureza, fonte de todas as formas de vida. Que pensem que cientistas e religiosos desde sempre dizem que somos cíclicos. Nascemos, partimos. Um dia retornamos e este retorno poderá ser num lugar sombrio e inóspito..

O QUE TERIA A PEDIR PARA SUA AÇÃO SOLITÁRIA?

Um minuto de atenção. Um olhar para a natureza. Um gesto de carinho. Um pequeno desapego ao dinheiro. Uma muda plantada, um lixo reciclado, um copo d’água economizado. Um vislumbre do futuro que chegará muito breve. Que já chegou silencioso, mas mostrando sua força catastrófica.

Europeus, Japoneses e os infelizes Americanos do norte já sentiram o fio desta navalha cortando suas entranhas recheados e protegidos por tesouros matériais, tirados da natureza. Que ao partirem sintam que serão apenas um espírito infeliz culpando-se pelos erros cometidos em pról da ignorância e da tristeza de sempre buscarem mais.

Será, ao partir, apenas pó que adubará á terra, que sobreviverá.

Colaboraram nesta matéria:
Gauri Dasa
Thyara Pataxó

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