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Por: Linda Pressly
Em Melilla (Espanha)
Elas são conhecidas como as "mulheres-mulas de Melilla". São mulheres que, todos os dias, carregam cargas pesadas através da fronteira entre o enclave espanhol e o Marrocos.
Melilla, pequeno território encravado na costa norte do Marrocos, é um importante ponto de entrada de produtos no norte da África.
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Produtos que entram sendo carregados por uma única pessoa são classificados como bagagem pessoal e são isentos de taxa alfandegária. Daí o surgimento da atividade, que virou o ganha-pão de várias mulheres marroquinas sem alternativa de renda.
À luz do sol da manhã, há uma nuvem de poeira próxima à grade de cerca de 6 metros de altura que separa Melilla do Marrocos. A poeira sobe com a atividade frenética dos comerciantes preparando mercadorias para cruzar a fronteira.
Há roupas de segunda mão, rolos de tecido, produtos de higiene e utensílios domésticos, tudo vindo da Espanha e destinado a mercados no Marrocos e além. Há milhares de pessoas aqui e o barulho é ensurdecedor - uma cacofonia de motores acelerando e vozes.
Fardos enormes estão por toda parte, todos embrulhados em papelão e pano presos com fita adesiva e corda. E sob os imensos fardos, escondidas e encurvadas pelo tamanho de suas cargas, estão as mulheres marroquinas, as "mulheres-mula" de Melilla, conhecidas localmente como porteadoras.
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Mães solteiras
Esse comércio ocorre todos os dias no Barrio Chino, na fronteira entre Melilla e o Marrocos, por onde só passam pedestres. As "mulheres-mulas" têm o direito de visitar Melilla porque vivem na província marroquina vizinha de Nador, mas não podem residir no território espanhol.
Latifa reivindica seu lugar em uma das turbulentas filas compostas por centenas de mulheres e deixa cair sua carga de 60 kg de roupas usadas. Ela vem fazendo esse trabalho há 24 anos e receberá como pagamento 3 euros (R$ 9) para o transporte de seu fardo até o Marrocos. Mas este não é um trabalho que ela escolhe fazer.
"Eu tenho uma família que precisa comer," ela explica. "Eu tenho quatro filhos, e não tenho um marido para ajudar. Eu me divorciei porque ele batia em mim."
E então a fila anda, e Latifa desaparece em um mar de mercadorias.
Muitas das mulheres que trabalham como porteadoras são divorciadas ou separadas, como Latifa, mães solteiras que têm de prover para suas famílias. A vida na sociedade tradicional do Marrocos é difícil para essas mulheres, e geralmente esse é o único trabalho que elas conseguem. Algumas delas fazem três ou quatro viagens por dia através da fronteira, carregando até 80kg.
As remunerações variam, e as mulheres reclamam que precisam pagar propina a guardas do Marrocos.