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Além das histórias referentes a Teixeira de Freitas, vez por outra passaremos por outros sítios. Desta vez, contando a história de uma menina que chegou da Africa ao Porto de São Mateus e habitou muito tempo ali pelas bandas da Costa Dourada. Muitos dos negros de olhar altivo, belas feições, acentuado nível de inteligência e espírito empreendedor que habitam na região, pode ter laços sanguíneos com a histórica Cacimba Zumba. O escritor Maciel de Aguiar acaba de lançar livro, resultado de pesquisas a seu respeito. Ele conta sua fantástica história de atos heroicos, acontecidos entre São Mateus e a região próxima ao Rio Mucuri, hoje parte do Extremo Sul.
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A Aldeia de São Matheus, já nessa época, atraía os habitantes das mais variadas regiões do Brasil, distantes ou não de seu porto de “próspero comércio de escravos d’Angola”, e, como tal, seus limites ao norte, com a Capitania de Porto Seguro, iam até o rio Mucuri – maior acidente geográfico entre as duas Capitanias. Constantemente, fazendeiros ultrapassavam esses limites estendendo seus domínios até o Vale do Cricaré, cujo rio de águas mansas e esverdeadas se enrosca como uma serpente nas encostas de barrancas que produzem uma liga que o gentio transformava em tinta para adornos, tendo, mais tarde, o colonizador utilizando-a, também, na pintura de suas casas.
Nesse universo selvagem e fascinante, estabelecer-se como um próspero fazendeiro requeria demonstração de poder e prosperidade, o que só seria medido com “um razoável número de escravos”. O então fazendeiro José Trancoso, já devidamente incorporado aos seus novos domínios, visto que havia ultrapassado suas fronteiras sem ser molestado, “abriu uma picada de umas vinte mil braças às margens do rio Itaúnas”, onde assentou sua fazenda com cerca de uma centena de escravos e aquela negrinha que todos os pretos chamavam de princesa.
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Era o ano de 1690, e, há muito, na Serra da Barriga, nas Alagoas, os negros haviam se aquilombado, transformando o que era conhecido como Quilombo dos Palmares no mais importante centro de resistência contra o sistema escravocrata. As lutas para a sua destruição eram, sistematicamente, vencidas pelos negros amotinados, o que fizera outros focos de resistência pelo interior do país.
Durante anos, a “negrinha de feições finas e olhos esfumaçantes” foi levada – por sua natureza rebelde – aos mais humilhantes e infames castigos, tendo sido surrada no Largo do Chafariz, no Porto, “com outros escravos recapturados”, provavelmente, por não aceitar, de bons modos atender aos desejos do fazendeiro. Contava o mestre Balduíno Antônio dos Santos, que “certa feita ela foi arrastada da senzala até à Casa Grande, onde foi interrogada pelo senhor”, que queria saber se era verdade “o boato que se espalhava por todos os lugares” de que ela “era uma princesa”.