Seis décadas depois, mais de 100 km da BR-367 ainda estão sem asfalto

Por: G1 / MG
22/08/2013 - 23:16:31



Veja a segunda reportagem da série 'BR-367: Um sonho de JK'.
Na rodovia ainda há trechos de terra e várias pontes de madeira.


Por:
Marina Pereira 

Durante nove dias, a equipe de reportagem do G1 percorreu todo o trecho da BR-367, que nasce em Diamantina (MG) e vai até Santa Cruz Cabrália (BA). A estrada é uma importante ligação ente Minas Gerais e o litoral baiano.
Iniciada na década de 50, durante o governo de Juscelino Kubitschek, alguns trechos da rodovia se encontram em situação caótica. O asfalto, que começou a ser implantado em 1980, até hoje não foi concluído.

Mato alto atrapalha visualização das placas em Turmalina - Foto: Marina Pereira

Onde o asfalto chegou, restaram apenas as lembranças das dificuldades enfrentadas em um passado não muito distante. Caminhoneiro há mais de 30 anos, Flávio Manoel da Cunha, 53, já passou muitas vezes pelo antigo trecho de terra. “Antes do asfalto sofríamos demais para chegar a Turmalina. Em épocas de estiagem a poeira incomodava bastante, e quando vinha a chuva deixava de trabalhar, porque a estrada ficava intransitável”, relembra.

  Ponte construída há mais de 7 anos em Minas Novas continua sem utilidade por falta o encabeçamento - Foto: Marina Pereira/G1

A dificuldade enfrentada por esse caminhoneiro ainda faz parte da realidade de muitas pessoas que utilizam a BR-367 em outras regiões. Mais de 100 km de estrada continuam sem asfalto.

O primeiro trecho está localizado entre
Minas Novas e Chapada do Norte. Em uma distância de 20 km o asfalto se alterna com a terra.  Além da poeira, verdadeiras crateras se formaram ao longo da rodovia, provocadas pela erosão.

  Primeiro trecho de terra entre Minas Novas e Chapada do Norte - Foto: Marina Pereira/G1

Para levar as crianças às escolas da região, o motorista do ônibus escolar, Valdir Ferreira da Silva, passa pela BR-367 pelo menos seis vezes ao dia. “É um percurso curto, mas que se torna muito cansativo por causa da terra, e o trecho é de difícil acesso”, relata.

  Erosão destrói parte da estrada entre Minas Novas e Chapada do Norte - Foto: Marina Pereira/G1

Muitas pessoas assim como seu Valdir são obrigadas a conviver com o sofrimento, pois precisam da estrada para se locomover ou até mesmo para ganhar a vida.

É caso do taxista Ilton Aparecido Fernandes, que leva passageiros de
Chapada do Norte para Minas Novas todos os dias.

  Carro quebra na estrada de terra e é rebocado - Foto: Marina Pereira/G1

“A estrada é muito complicada, eu vivo levando o carro para o conserto porque a suspensão sempre quebra. Em época de chuva, o prejuízo é ainda maior, muitas vezes deixamos de trabalhar para não colocar nossa vida em risco”, afirma.

Há 17 anos na estrada, o taxista Geraldo de Fátima Barbosa também tem muita história para contar. Além de prestar socorro aos amigos que se acidentam no trecho, ele já passou por apuros. “Sofri dois acidentes na estrada de terra, uma vez eu bati de frente com um veículo, e em outra data caí dentro de um buraco. Não foi muito grave, pois estava bem devagar”, disse Geraldo ao G1.

  Taxista se arrisca diariamente na estrada de terra - Foto: Marina Pereira/G1

Depois de Chapada do Norte, a próxima cidade é Berilo. São mais 20 Km de terra, uma estrada que parece ter parado no tempo.

Nesse trecho estão localizadas as primeiras pontes de madeira da rodovia. O estado delas é crítico. A mais perigosa fica logo depois de uma curva e não oferece nenhum tipo de segurança. Ela está sem proteção lateral e com várias tábuas soltas.

  Primeira ponte de madeira da BR-367, entre Chapada do Norte e Berilo. Marina Pereira/G1 - Foto: Marina Pereira/G1

Medo e indignação. Esses são alguns dos sentimentos de quem se arrisca na BR-367. Nas pontes de madeira, caminhões e carros disputam espaço com pedestres e motociclistas.

O produtor rural Anastácio Dias Pereira precisa descer do cavalo para atravessar a ponte. “Eu venho puxando o animal, porque fico com medo. É muito perigoso, ele pode se assustar e escorregar em uma das tábuas”, declara.

  Ponte de madeira entre Chapada do Norte e Berilo - Foto: Marina Pereira/G1

“Essas pontes são um descaso, pois coloca em risco a vida de toda população. Passo por aqui com muito medo, mas não tenho outra alternativa”, relatou  o comerciante Álvaro de Souza Pereira, que dirigia um carro de passeio.

O motorista Maurilio Lopes da Silva quebrou a caminhonete no trecho de terra [entre Chapada do Norte e Berilo], e teve que chamar o guincho para socorrê-lo. “É só sofrimento nessa estrada, nem carro forte como o meu aguenta. A suspensão quebrou e agora tenho um prejuízo de mais de mil reais”, diz.

  Várias tábuas soltas em uma das pontes de madeira em Berilo - Foto: Marina Pereira/G1

Segundo o funcionário da empresa de reboque, o que não falta na estrada é serviço. “É raro a semana que não acontece isso. As vezes temos que vir até três vezes no mesmo dia”, afirma Aécio Pereira.

De Berilo à cidade de
Virgem da Lapa o percusso é feito também em estrada de terra com muitos buracos e pontes, sem o mínimo de segurança. Um dos pontos mais críticos é o da região conhecida como Córrego do Barbosa. No local existia uma ponte de concreto, que segundo os moradores, foi levada pela enchente há 9 anos.

  Uma das pontes de madeira com cabo de aço em Berilo - Foto: Marina Pereira/G1

Enquanto uma nova estrutura não é construída, quem precisa ir a Virgem da Lapa passa por dentro do córrego, que em período chuvoso torna-se muito perigoso.

A moradora Ana Rodrigues é quem socorre as pessoas que enfrentam dificuldades para passar no local. “Quando chove, as vezes eu nem durmo a noite, socorrendo o povo. Já vi o desespero de muita gente, sendo levado pela água”, declara.

  Trecho entre Virgem da Lapa a Araçuaí está asfaltado, mas com muitos buracos - Foto: Marina Pereira/G1

Movida pelo espírito solidário, Ana abre as portas de sua residência. “Todo mundo que não consegue atravessar eu acolho na minha casa. Já teve época de ficar com hospedes até 18 dias seguidos”.

Depois de Virgem da Lapa, o próximo trecho de terra é entre
Almenara e Salto da Divisa, passando pela cidade de Jacinto. Sendo que, até Jacinto, os 51 km de estrada também se alternam, entre asfalto e terra. Seguidos de mais 48 km de terra até Salto da Divisa, última cidade de Minas Gerais, cortada pela BR-367. Nos dois trechos existem mais de 10 pontes de madeira. 

  BR-367 entre Araçuaí a Itinga - Foto: Marina Pereira/G1

Porém, todas bem sinalizadas, diferentemente das encontradas nos outros locais. Depois de Salto da Divisa, a BR-367 continua em território Baiano. A rodovia, que passa por mais quatro municípios, está asfaltada e em boas condições.

O que diz o DNIT

  As cruzes ao longo da rodovia indica que muitas pessoas já perderam a vida na 367 - Foto: Marina Pereira/G1

De acordo com o superintendente do DNIT em Minas Gerais, José Maria da Cunha, a licitação para a conclusão das obras já foi concluída, e, até julho de 2014, a empresa deve finalizar os projetos para início da pavimentação da BR-367.

Ainda segundo ele, o projeto implica em colocar a rodovia nos padrões do órgão, uma vez que ainda existe um longo trecho sem asfalto de revestimento primário. “Além da pavimentação da estrada de terra vamos substituir também as pontes de madeiras por concreto”, afirma.

  Trecho de terra entre Jacinto a Salto da Divisa - Foto: Marina Pereira/G1   Entre Almenara a Salto da Divisa são mais de 10 pontes de madeira - Foto: Marina Pereira/G1
  Pontes em Salto da Divisa estão sinalizadas - Foto: Marina Pereira/G1   Quem vai para Berilo ou Chapada do Norte precisa enfrentar estrada de terra - Foto: Marina Pereira/G1

 

 

 

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