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Por: Teoney Guerra
Série de episódios, transcritos de um livro que está sendo escrito por Antônio Reis, filho de Moisés Reis, um dos pioneiros de Eunápolis. A publicação que será lançada este ano, como homenagem pelos 100 anos do nascimento de Moisés Reis, tem como fonte, anotações de uma espécie de diário deixado pelo seu pai.
EPISÓDIO II
Capítulo no qual, Moisés Reis conta o encontro com o lendário Joaquim Quatro, primeira pessoa a fixar residência no local onde é hoje Eunápolis.
O encontro ocorreu no mesmo dia 18 de setembro de 1944 – veja Episódio I -, no final do dia, após ele, Moisés Reis e sua equipe, fazerem o trabalho de locação da futura estrada BA 02 – hoje BR 101 – no trecho compreendido entre a Sapucaeira e o rio Buranhém. Feito o serviço, o grupo retornava da margem do rio para o acampamento, na Sapucaeira.
Estava terminada a minha missão no projeto. (...) Tudo pronto, partimos rápido, pois já eram quase quatro horas da tarde e tínhamos de andar dez quilômetros de picada até a Sapucaieira. Corríamos o risco de anoitecer no trajeto, o que era obviamente perigoso dado a inospitalidade do ambiente. Começamos a subir a ladeira de volta, a principio na clareira, mas logo entrando na mata. Ao chegarmos no chapadão, aceleramos os passos, já que além das foices, facões e espingarda, só tínhamos para carregar o bornal vazio, uma bússola e uma trena. Caminhávamos sem muita conversa, só Vicente Bataria que de vez em quando pronunciava um ”vombora pessoal, se não a onça come um”, pois segundo ele, a onça caminhava oculta na floresta, na espreita, para pegar o último da fila. Aguentamos o rojão, coluna por um. O bastião tropeiro orquestrava a sua sinfonia infernal.
Vez por outra, um “bico de fogo”, pequeno pássaro azul com o bico vermelho, ousava chegar mais perto para nos observar; ou era a “perua choca” com seu “foifô-ri-fô; ou a “alma de gato” com seu canto piedoso. Alcançamos a atual Paulino Mendes, Praça da Bandeira, rua Dr. Gravatá e finalmente a esquina da D. Pedro II com a 13 de Maio, à margem Córrego do Gravatá. Estávamos com sede, e quando preparava-nos para beber água, notamos a presença de um homem, que não fora notado quando passamos pela manhã. Ele já havia nos visto e nos observava à distancia, certamente curioso pela presença de oito homens de uma só vez naquelas paragens. Aproximando-me dele, estendi-lhe a mão.
- boa tarde, amigo!
- boa tarde moço, respondeu-me.
- qual é a sua graça? Perguntei-lhe.
- Joaquim Quatro.
Olhando em volta já tinha percebido que ele estava improvisando um rancho de palhas de palmeiras. Então lhe perguntei:
- senhor Joaquim, porque está fazendo esse rancho aqui neste lugar?
- é que vou abrir uma “posse” aqui, e esse será o meu abrigo enquanto aqui estiver para fazer a derrubada da mata. Depois que queimar o roçado e fizer algum plantio, vou fazer uma casa melhor para morar. E quem é o senhor?
- Sou Moisés, funcionário do Governo da Bahia, e estou procurando por onde passar com uma estrada. O governo vai construir uma estrada por aqui.
- que estrada é essa? Estrada para carro? Só quando eu vê, vou poder acreditar.
Comecei a ficar confuso, pareceu-me que algo me convidava para ficar. O avançado da hora, a natureza exuberante, a água fresca, franca e cristalina; a conversa com aquele homem que já me parecia familiar; o cansaço que já se fazia presente, além de que ainda teria de caminhar por seis quilômetros pela picada. Resolvi então pernoitar ali. Já decidido, dirigi-me ao pessoal perguntando:
- que tal dormirmos aqui?
Todos concordaram, mas... um objetou:
- e a comida?
- não é nenhum problema, não dá pra morrer de fome. Amanhã sairemos no raiar do dia, e chegaremos na hora do café da manhã, no que todos concordaram.
Afinal, era mais sensato que se aventurar pela floresta durante a noite. Pedi emprestado ao Joaquim um machado.
Escalei um ou dois dos auxiliares para que cortasse lenha para acendermos uma fogueira. Não era fácil arranjar lenha seca na mata verde, mas, com a abundancia de pau-marfim que queima mesmo verde, a coisa ficou mais fácil e dentro de pouco tempo a fogueira estava acesa, com boa reserva para toda a noite.
A fogueira não podia apagar, pois corríamos o risco de faltar um, no dia seguinte, comido pela onça. Era 18 de setembro de 1944, às 6 horas da tarde, hora em que foi acesa a primeira fogueira na localidade onde seria erguido o maior povoado do mundo – Eunápolis. Naquele momento foi acesa a chama que transformaria para sempre aquela paisagem milenar nas margens do riacho do gravatá.