O fino verniz da democracia de Abade

Por: NossaCara.com
10/05/2009 - 21:54:01

Por: Guilherme Ferreira da Silva

O estarrecimento diante do assombroso corpo social que se forma do sistema municipal de educação lançou uma preocupada mãe a uma pesquisa, de escola em escola, a fim de observar a quantas anda a formação dos jovens de Porto Seguro. Qualquer tentativa de adjetivação minimizaria a criminosa situação a que chegou o ensino fundamental. O tráfico de crack e armas dentro e fora das escolas e o depoimento de estudantes que trabalham como voluntários a roçar pátios, diz tudo.

Investida do poder que a cidadania lhe confere, a dita mãe convocou a comunidade do Arraial d´Ajuda, onde mora, e o Estado, na pessoa do seu representante, o Secretário de Educação, Caetano Cupolo, para um reunião no dia 07 de maio às 19:00h, no anfiteatro da Escola Brigadeiro Luís Eduardo Gomes, para juntos apontarem possíveis soluções contra os efeitos de uma tragédia social anunciada, há décadas.

Comunidade e Estado presentes, a diligente mãe abriu a reunião com uma rápida explanação sobre o que viu nas escolas municipais visitadas e passou a palavra ao Secretário que, inicialmente, postou-se como um verdadeiro servidor público ao dizer que estava ali para dar satisfação à comunidade sobre o que a prefeitura faz com o dinheiro tributado. Postura até então desconhecida de secretários anteriores.

O Secretário não creditou a responsabilidade do caos à administração passada - mesmo porque esta é continuação daquela - e disse que ela deixou sua contribuição. De fato, o desmonte da educação municipal remonta a natais passados, quando pintos de sunga já se esparrachavam na farta verba federal para a educação.

Além de esquadrias, pisos, encanamentos e material didático, o Secretário anunciou que tem uma audaciosa meta para a educação: elevar o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB, de 3,1 para 4,5 até 2013, superando, inclusive, a meta do governo federal, que é de 4,1 para o mesmo período.

Segundo o Secretário, as metas estão ancoradas nas 28 diretrizes do Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE, para a melhoria da qualidade do ensino. Cupolo só não mencionou que a intrépida meta está no plano platônico, pois não apresentou algum dado que subsidiasse sua projeção, bem como não informou se a mesma está disponível em papel ou meio digital para consulta pública.

A meta envolve medidas que abrangem todo o corpo escolar. Desde diretores, passando por vices, coordenadores, professores, serventes e estudantes. Segundo o Secretário, tudo está baseado no monitoramento: da freqüência dos profissionais; planejamento; desempenho dos estudantes; evasão e tempo de resposta da escola às solicitações da Secretaria de Educação.

É bem verdade que o visionário Secretário não detalhou como esse monitoramento contribuirá para a elevação do IDEB e nem os passos para sua a execução. Mas essas informações devem envolver questões técnicas insondáveis para o poviléu ignaro do subúrbio.

Depois de quase uma hora de falação, sem dizer muita coisa, e da encenação de dois vereadores que fizeram palanque da ocasião, a comunidade foi convidada a participar por meio de perguntas. Foi a partir desse momento que as rachaduras no verniz democrático abadiano ficaram mais claras, na forma da participação popular concedida pelo ilustre Secretário de Educação: perguntas enviadas por escrito.

Sem perceber a segregação na forma ou, ao contrário e, por isso mesmo, maquiavelicamente, retalhos de folhas de papel foram distribuídos como uma senha para participar do debate de mudos. Levando em consideração que a média de escolaridade no Estado é o segundo ano primário, apenas aqueles que sabem se expressar por meio da escrita podiam formular uma questão que exigisse algum trabalho mental de Caetano Cupolo.

Enquanto o Secretário e seus secretários selecionavam as perguntas permitidas, lideranças estudantis foram convidadas para apresentar a Cupolo suas demandas. O primeiro estudante postou-se diante da mesa onde se encontrava o Secretário e, tratando-o com a mais respeitosa educação que merece um ser humano, mais até que o cargo, passou a ler as anotações que elaborou com seus colegas.

Trabalho em vão: enquanto o rapaz lia, Cupolo mantinha os olhos enfurnados nos papéis, riscando um e outro e separando-os em pequenos montes. Em momento algum o nobre Secretário dignou-se a olhar para o estudante, que reclamava direitos como se implorasse favor a um deus.

Em seguida, ao responder, sem se comprometer como fez questão de deixar claro em mais de uma vez, uma pergunta sobre a contratação dos professores concursados, uma professora levantou o braço e pediu a palavra para dirimir uma dúvida. Foi quando o verniz ruiu de vez e a medonha carantonha da prefeitura apareceu.

O servidor público contratado diretamente pela prefeitura, para cuidar dos interesses da educação no município, ignorou a cidadã e seguiu em frente com suas tergiversações. Deixou atônita e sem resposta toda uma comunidade que ali estava para, segundo ele próprio, tomar satisfações quanto ao uso que a prefeitura faz do dinheiro alheio. O pior: ao invés de retratar-se e dar voz a quem de direito, fez-se de surdo para os protestos do público, que acordou, e seguiu em frente sem dar atenção a ninguém.

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