Homem como antigamente

Por: NossaCara.com
29/03/2009 - 20:43:11

Homem como antigamente

Por: Ronaldo Duran

Ronaldo Duran é escritor e colunista do Nossa Cara.comAs vassouras alojadas num canto. Tiveram que se desdobrar para limpar salas, banheiros, corredores. Até as plantas, após aguadas, agradeceram. As três amigas, na copa, proseiam futilidades. Amanhã é dia da independência. Amam o país, mas estão longe dos ideais de civismo. Ir ao desfile militar? Nem pensar. O programa de feriado no máximo contará com um churrasco ou lasanha para almoço com a família.

A indesejada parada militar alimentou a prosa. Uma recordou o tempo que desfilava pela escola primária. Aquele tempo sim, dizia a loira de olhos azuis, era bom. Hoje em dia as escolas não valorizam as datas importantes. Os alunos? Se a escola não dá o exemplo, mostra o caminho correto, como quer cobrar postura.

“É tempo moderno”, rebate sorridente a negra, a mais nova das três. A terceira faxineira, morena, cabelo negro escorrido e longo, a mais gordinha, não fica atrás: “Tenho pena de minha filha. O que vai sobrar para ela? E para meus netos?”.

Seguindo a lógica da frivolidade, a conversa de repente se torna séria. Está sob análise a conduta dos homens. A loira de olhos azuis e de cara amassada pela árdua vida reclama a conduta do genro. Moço pouco ambicioso, muito dependente.

“É assim que eles estão hoje”, emendou a loira, “exploram como podem as mulheres. As vítimas preferenciais são as de meia idade, com casinha no nome. O malandro se achega e quando se dá conta está ele no sofá, comendo e bebendo. Uns deixam de trabalhar. Comigo não, jacaré.

“Você tem toda a razão. Minha amiga é que está passando um sufoco com o namorido”, a negra acrescenta.

“Eles acham que é só fazer isso”, e fez um gesto obsceno, “pensam que fazem favor no carinho que dão e justificam a exploração da pobre coitada”.

“Eu sou sozinha, e comigo não”, defende-se a morena, “posso muito bem viver sem amor. O que não aceito é ser explorada. Se quiser somar comigo, ótimo. Ter que lavar cueca de marmanjo e agüentar marido grosseiro? Nunca. No fundo eu tenho pena delas: que para manter o marido, fazem de tudo.

As amigas continuavam a prosa, convictas nas manifestações de repúdio à exploração da mulher por um homem que a usa, por medo de ficar sozinha.

“Os homens de antigamente, sim, eram de verdade”, dizia a loira. “Eram sim”, as demais concordaram em uma única voz.
 
* É romancista, contista e colabora com crônicas toda semana neste jornal.
Contato: ronaldo@ronaldoduran.com

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