
Aconteceu em Eunápolis na última sexta-feira (08) uma reunião com a proposta de discutir a expansão do agronegócio, a produção de álcool e etanol e a reforma agrária no extremo sul da Bahia. O encontro contou com representantes da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), da Central Única dos Trabalhadores (CUT), da Federação dos Trabalhadores na Agricultura dos estados da Bahia e Espírito Santo, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Eunápolis, Secretaria Municipal de Agricultura e o Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia (Cepedes).
Todos os participantes acreditam que a discussão sobre o agronegócio na região
passa necessariamente pelas monoculturas do eucalipto e da cana-de-açúcar, presentes maciçamente no extremo sul. O eucalipto, segundo os integrantes da reunião, apresenta-se como uma barreira à realização da reforma agrária e como agente de expulsão do homem do campo.
Coalizão
Esse tipo de reunião vem acontecendo em todo o país, especialmente em regiões com concentração de latifúndios e monoculturas. Em Eunápolis o encontro foi motivado pela Contag que já produziu outro semelhante no estado do Rio de Janeiro, para também discutir os plantios de cana-de-açúcar e eucalipto e seus desdobramentos. A idéia é formar coalizões a partir da reunião de entidades diversas que atuam nas áreas trabalhista, ambiental e de reforma agrária.
Num primeiro momento foi realizado um diagnóstico da região com base na pauta proposta. O tema eucalipto dominou a cena. Foram levantados dados e depoimentos sobre a problemática trabalhista e ambiental. Assuntos como o avanço vertiginoso dos eucaliptais, a falta de infra-estrutura do Governo Estadual para fiscalizar o empreendimento e o êxodo rural figuraram como enfrentamentos prioritários.
Para Paulo de Tarso, secretário de Política Agrária e de Meio Ambiente da Contag, essa primeira reunião deve resultar numa proposta de debate com a sociedade, parceira fundamental para o enfrentamento do problema. Paulo destaca que o agronegócio é bastante privilegiado pelo Governo Federal. “Apesar do presidente Lula ter avançado nas políticas sociais, há toda uma estrutura de governo para fortalecer o agronegócio” detalha. Seguindo essa lógica, ele afirma que projetos alternativos como, agricultura familiar ou solidária, acabam sendo excluídos da pauta governamental enquanto propostas mais inclusivas.
Avanço vertiginoso
A urgência de projetos de reforma agrária para o extremo sul foi apontada como
fundamental para o desenvolvimento da região. Os dois assentamentos existentes em Eunápolis têm cerca de 10 anos de existência cada. Os assentados ainda esperam uma decisão da Justiça e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Para Melquiades Espínola, do Cepedes, a reforma agrária no extremo sul se torna a cada plantio de eucalipto inviável, ele especula que 50% das terras agricultáveis da região já estão ocupadas pela monocultura do eucalipto.
De acordo com dados do Movimento dos Sem Terra (MST), divulgados no evento, existem cerca de 14 mil famílias do MST somente à beira das estradas do extremo sul. O número deve subir ao se levar em conta a presença de outros movimentos como o Movimento de Luta pela Terra (MLT).
Já para a coordenadora do Cepedes, Ivonete Gonçalves, o debate sobre o agronegócio no extremo sul envolve questões fundamentais como a qualidade do solo, recursos hídricos, postos de trabalho e infra-estrutura de governo. Ivonete lembra que todo esse processo é ainda perpassado pela alienação e cooptação da sociedade civil que assiste ao inchamento das principais cidades da região e o aumento do desemprego e criminalidade.
Como seus companheiros de debate ela também acredita na reforma agrária como uma das soluções. Por outro lado, pontua que as terras no extremo sul estão escassas. “O que resta para a reforma? As áreas de preservação permanente? Elas também são importantes para a qualidade de vida” desabafa.
Em 2007 durante um seminário promovido pelo Centro de Recursos Ambientais da Bahia (CRA) foi pedido a moratória do eucalipto, ou seja, a suspensão imediata de novos plantios. Ivonete informa ainda que o próprio Governo Estadual desconhece as reais proporções do eucalipto. A responsável pelo CRA, Beth Wagner, informou em 2007, que a entidade possui apenas 20 técnicos para todo o estado. A falta de fiscalização é gritante não somente para o extremo sul, mas toda a Bahia. Mesmo assim, Ivonete acredita que ainda é momento para discutir uma solução.
A reunião foi finalizada com o agendamento de uma nova reunião, marcada para o início de março. Após o diagnóstico o grupo prevê a discussão de possíveis ações conjuntas.
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Fotos: Urbino Brito