
Sebastião Salgado e Lélia sua esposa contempla sua obra.
Muitas vezes, é da floresta nativa que o agricultor tira a madeira para as atividades do dia-a-dia. Por isso, o Instituto Terra vem criando um pequeno, mas poderoso exército para batalhar pela idéia de preservação. Os soldados são jovens e crianças. 
O plantio, no Instituto Terra, não é só de mudas. Aqui também se plantam idéias e em solo bem fértil. Os alunos do centro de estudos avançados do Instituto Terra são jovens técnicos agrícolas que buscam especialização em meio ambiente. El Instituto Terra, fundado por la familia Salgado, ha recuperado el bosque en un valle que se había resecado. Vista aérea del Instituto Terra en la hacienda Balcão, en la población de Aimorés, donde los técnicos siembran plántulas para reforestar. Alunos do Instituto Terra, durante uma aula. Comunidade e escolas de Aimorés participa de evento da semana do meio ambiente pelo Instituto Terra.
O curso dura dois anos e a seleção é feita entre estudantes de municípios vizinhos. São dez alunos por turma e todos recebem alimentação, moradia e ajuda de custo de R$125,00 por mês. Para muitos deles esta é a primeira separação da família.
“Primeiro impacto, você pensa, dois anos... a gente sente um pouco, mas o próprio ambiente, essa falta que meus pais fazem pra mim, mas fácil não foi, não”, diz Letícia Lopes Bernardes, técnica em meio ambiente.
“Na nossa escola, que a gente fez curso técnico, a gente aprendeu muita teoria e vindo pra cá a gente teve a chance de colocar a nossa teoria em prática”, diz Grazziella Bossanelli, técnica em meio ambiente.
A maioria aqui vem de família rural. Daniel veio de Ipanema, Minas. Ele é da primeira turma de alunos e terminado o curso foi contratado para trabalhar no viveiro de mudas.
O rapaz que deveria levar seus conhecimentos para ajudar o pai na criação de gado de leite acabou virando plantador de árvores.
“Gera conflito dentro da própria casa e eu que to aqui fora porque o meu avô, até mesmo meu pai e minha mãe, vão precisar de madeira e, muitas vezes, em vez de trabalhar, sustentavelmente acabam cortando árvores pra fazer cerca, pra fazer construção civil mesmo. Então, Isso aí fica uma briga dentro de casa porque ta cortando, porque faz isso, porque não? Então, sempre gera um conflito muito grande dentro da sua casa”, explica Daniel Ferreira de Assis, técnico agrícola.
Para multiplicar a idéia de preservação, o Instituto Terra não conta apenas com os jovens do centro avançado: contam com os terrinhas, crianças das escolas públicas de Aimorés que, uma vez por mês, participam de atividades de educação ambiental dentro do instituto e, pelo jeito, eles mudaram bastante. 
“Eu vi um menino subindo em cima da árvore, pegando um ninho e quebrando os ovos. Não falei nada porque eu não era terrinha e não sabia de nada. Hoje eu diria que ele tava destruindo uma vida que ia nascer”, conta Ana Clara Ferreira, estudante.
O que aprendem no instituto, os terrinhas levam pra escola. A criançadinha parece prestar atenção nas palavras do Tiago Resende. Aos 11 anos, ele está preocupado com o aquecimento global. Foi por isso que resolveu entrar pros terrinhas.
“Eu sei que eu tinha que conscientizar-me mais porque eu não sabia o bastante para preservar a natureza. Depois que eu entrei pros terrinhas eu aprendi 90% a mais do que eu já sabia”, diz Tiago Resende, estudante, 11 anos.
Não é só na escola que os terrinhas passam seus novos conhecimentos. Que o diga a mãe do Tiago, dona Maria da Penha. O quintal da casa nem sempre foi tão limpo. O lixo hoje é arrumadinho. Outra mudança foi na economia de água.
“Era lavar roupa pra cá, pra lá e gastava muita água. Agora, a gente não suja muito a roupa porque sabe que a água no mundo está para acabar. A conta de água diminuiu bastante. De 35 voltou pra 19,44”, diz dona Maria da Penha, faxineira, mãe do Tiago.
O projeto dos terrinhas é um olhar de esperança para o futuro. Já num passado não tão distante, o casal Lélia e Sebastião registrou para sempre um olhar desesperado sobre outras crianças de outros países.
“Crianças refugiadas em Ruanda. Órfãos e aqui mantendo sob o cobertor, protegendo pra tentar ver se sobreviviam. Um deles não. Morreu nem uma hora depois que eu fotografei”, conta Sebastião.
Os conflitos em Ruanda, na África, foram retratados em fotos chocantes de Sebastião Salgado. A disputa entre as duas etnias. Hutu e tutsi ficou conhecida como o genocídio de Ruanda. Cerca de um milhão de pessoas mortas.
“Esse Exodus, um livro que a gente fez sobre o êxodo no mundo inteiro, aqui não é só refugiado, aqui é o abandono do campo pra cidade, são os refugiados, são as grandes megalópolis no mundo, o êxodo rural, principalmente. Essa história nós conhecemos, é a nossa história também. Eu também choro muito. Quando você vai trabalhar num lugar desse, isso passa a ser a sua forma de vida. Uma foto eu fiz um ano, exatamente um ano depois que as pessoas estavam mortas aqui. Encontrei um comandante militar e ele falou: - Vou te levar numa escola onde aconteceu uma coisa terrível e quando eu cheguei aqui eu não acreditei: encontrar todos estes cadáveres um ano depois da chacina. Foram todos liquidados dentro da sala de aula. Esta outra devia ter aproximadamente uns dois milhões de refugiados saídos de Ruanda e eram centenas de campos de refugiados. Olha, eu, pra mim, essas pessoas não vivem na miséria. São pessoas que tinham uma situação estável, que tinham sua pequena propriedade rural ou na cidade. Um dia, boa maioria delas, sem saber porque, teve a vida completamente destruída, se encontrava já na estrada, com o mínimo que podia transportar, fugindo, indo de um ponto para o outro. Às vezes só porque a relação da política internacional tinha mudado e o resultado era que milhares de pessoas estavam sofrendo as conseqüências. Em hora nenhuma uma pessoa destas perdeu a dignidade. Perdiam a vida, mas não a dignidade. Quantas vezes as pessoas vinham como se viessem falar no microfone. Pedir pra ser fotografada. Pedir pra mostrar a situação. Muitas vezes eu me senti em risco. Tive que parar de trabalhar, eu comecei a morrer. Fui atacado por um staphillococus, nada funcionava na minha vida, todo o meu corpo, eu comecei a morrer. Eu cheguei na França, procurei um médico, ele falou: - Pára porque você ta morrendo”, relata Salgado.
Em seu último projeto fotográfico, Lélia e Sebastião se afastam um pouco da tragédia humana e se voltam à natureza. Gênesis revela uma busca a lugares intocados, uma reverência ao planeta Terra.
“É um pouco uma homenagem ao planeta, que a gente ta fazendo. Eu fotografei uma iguana em Galápagos e você olha pra uma iguana e ela num tem nada a ver com você, mas eu fiz um detalhe de uma iguana que é como uma mão de um guerreiro da Idade Média, coberta de metal. Um gorila tem praticamente 99% do que eu tenho. Aí, a gente compreende que todo mundo vem de uma célula só, uma célula básica”, diz o fotógrafo.
Sebastião e dona Lélia nos levaram pra conhecer alguns pontos da fazenda, alguns lugares onde eles gostam de ir quando estão no Brasil.
Num ponto descemos para ver uma das nascentes que voltaram a surgir após o reflorestamento. Na descida, o casal vai se encantando com a natureza a sua volta.
“Olha que coisa linda. Olha os galhos dela, você tem a impressão de que ela ta morta, não tem uma folha, mas você olha aqui no caule, ela ta vivinha. Primeira chuva ela bota a roupa de festa”, observa Sebastião.
“Eu acho isso aí um milagre...é uma maravilha a gente pensar que a gente pode refazer o mundo outra vez”, diz Lélia.
“Olha o processo ao revés. Embaixo dessa planta o que que tem aqui: uma moita de capim colonião, ela tá aqui como marca da fazenda de gado. Quando você olha do outro lado do barranco você vê as samambaias que são da floresta, já voltando e competindo, cobrindo o colonião e ele vai desaparecendo”, conta Sebastião.
Da nascente fomos para outro lugar. Lá embaixo fica o córrego Bulcão, que dá nome à fazenda, também chamado de córrego Salgado, em homenagem ao Sebastião Salgado, o pai. Aos 63 anos, mostra agilidade invejável e, num instante, alcança o córrego da sua infância.
“Esse é o Bulcão. É o córrego em que a gente nadava, que a gente pescava, que a gente brincava. Na realidade, aqui foi uma espécie de paraíso. Depois, aos poucos essa fazenda foi acabando. A gente saiu do Brasil em 69 e quando voltamos , outra vez, em 80, ai, que choque. Que coisa terrível. A gente perdeu a floresta, tinha perdido a água. A quantidade de gado que meu pai tinha já era muito menor. E engraçado que, falando com ele, ele num tinha notado que tinha acabado... na realidade, ele degradou com a degradação da terra. Hoje o fato da gente ter água é porque as árvores na época de chuva elas captam da raiz toda a umidade da chuva. Numa chuva, se eu pego o exemplo do seu cabelo, se você não secar com secador leva duas, três horas pro seu cabelo secar. O meu, em dois minutos está seco. A água bate aqui e vai embora. Na terra sem cobertura vegetal é a mesma coisa. Se chove, em dois minutos, a água vem lá de cima aqui embaixo e traz toda a cobertura vegetal, traz tudo, traz terra”, explica Sebastião.
Do mirante da fazenda, Lélia e Sebastião observam tudo o que já foi realizado e o que mais falta realizar. O projeto é o plantio de 50 milhões de árvores em 50 anos. Um milhão, já crescendo.
“A gente imagina o que era isso aqui há 200 anos atrás quando o índio chegava nesse ponto em que nós estamos e olhava o planeta dele coberto de florestas, devia ser uma coisa maravilhosa..., realmente a visão do paraíso. Já tiveram aqui animais muito mais potentes fisicamente que a gente, os dinossauros que viveram por 100 milhões de anos, 150 milhões. A gente é um bichinho tão recente e não está assegurado que a gente vai continuar, principalmente fazendo isso, esse mundo de bobagem que a gente está fazendo, caminhando diretamente contra o muro”, diz Salgado.
Para o casal, que há muito tempo tem o planeta como casa, esta paisagem traz a sensação de volta ao lar.
“Quando eu estou aqui, eu tenho a impressão de que eu nunca saí daqui”, diz Sebastião.
“Eu quero morrer aqui, eu quero ser enterrada aqui”, deseja Lélia.
Lélia e Sebastião Salgado puderam interferir na paisagem e na vida dos moradores de Aimorés, situação bem diferente dos lugares fotografados por eles. Lá, eles só puderam denunciar a guerra e a violência através de suas imagens, o que não é pouco.
Matéria extraída do site www.globo.com/globorual


Foto da capa do site do Instituto Terra
Fonte/Autor: Materia do site Globo Rural