Em Aimorés Minas Gerais casal recupera mata atlântica

Por: NossaCara.com
02/12/2007 - 12:34:00

Sebastião Salgado e sua esposa Lélia sendo entrevistados pela repotagem do Globo Rural.           Imagem reproduzida do site Globo.com

Uma fazenda que chegou a ter 1.200 cabeças de gado, onde só havia pasto, aos poucos é transformada em floresta, Floresta Atlântica.

Este é o futuro traçado para a Fazenda Bulcão, em Aimorés, Minas Gerais. O Globo Rural foi até lá conhecer o projeto.

Um casal está recuperando a natureza na antiga fazenda de gado da família. Em menos de 10 anos, já plantou um milhão de mudas. Pra isso, foi criado um instituto com o nome do nosso planeta: Terra.

Este é um dos lugares mais bonitos de Aimorés, e é onde casais como

Sebastião Salgado com o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda durante a inauguração do Cine e Teatro Instituto Terra.  Imagem reproduzida do site Globo.com

Carla e Fortunato vêm para tirar as fotos oficiais do casamento. As plantas e flores inspiram os sonhos de vida nova.

Há cerca de 10 anos, no mesmo local, um outro casal também fazia planos para o futuro. Idéias que mudariam a vida de muita gente em Aimorés, inclusive a vida do Fortunato e da Carla a começar por um jardim, que nem existiria se não fossem os planos deste casal.

Lélia Wanick, arquiteta, e Sebastião Salgado, fotógrafo ainda hoje se encantam com o jardim criado por eles mesmos. Aí, o registro do início do plantio. Mas a idéia dos dois ia muito além do jardim. “Foi uma idéia que eu tive, que apareceu da degradação da terra. Era tão feio, tão degradado, que nós estávamos olhando e falamos: vamos plantar uma floresta”, conta Sebastião.

Quem não gostou muito foi o antigo dono das terras. Senhor Sebastião, pai do Sebastião fotógrafo, passou a vida substituindo floresta por pasto para criar gado. Jamais poderia imaginar que o filho seguiria o caminho inverso: acabar com o gado e o pasto para replantar árvores. “O meu pai achava que era uma coisa completamente sem sentido usar uma terra, que ele achava que a gente até podia viver dela, transformar numa floresta. E mais: que nós não somos ricos. A gente gastando o pouco de reserva que a gente tinha para iniciar esse projeto e o pessoal da cidade não acreditava, ficava grupinho de fazendeiro rindo da gente, achando que a gente estava fazendo uma loucura. Ninguém acreditava que nasceria nada aqui”.


A dúvida tinha razão de ser. De toda a área coberta pela mata atlântica , na região de Aimorés restam apenas 0,3%. É como se a cada mil árvores da floresta apenas três tivessem resistido de pé.

Mas não foi só o desmatamento que, ao longo dos anos, empobreceu o município. A extração de granito também arranca do solo sua riqueza.

Aimorés fica no Vale do Rio Doce, na divisa do Estado de Minas Gerais com o Espírito Santo. A cidade perde mil habitantes por ano. Pessoas que olham para o futuro e não vêem nada, mais ou menos como acontece com quem vem a um mirante. Todo mundo sabe que um mirante é construído num local de onde se possa observar uma bela paisagem. Mas em Aimorés a vista que se tem não é nada bonita. Quando nós chegamos à cidade para falar de preservação do meio ambiente foi impossível ignorar o rio seco.

Beirando a cidade passava o Rio Doce. Passava. Ele foi desviado para a construção de uma usina hidrelétrica. No passado, o Rio Doce margeava Aimorés. Com o desvio para abastecer a usina, a água só vai reencontrar o leito original sete quilômetros depois. No leito antigo restou um caminho de pedras.

Senhor Orlando Nunes da Silva, morador antigo e defensor da natureza, lamenta a perda do rio. “Eu fico amargo de ver o rio desse jeito porque com a chegada de um empreendimento desse a gente pensa no bem estar, nós estamos precisando de energia, ninguém é contra o progresso com responsabilidade social, com responsabilidade topológica. Só de ver as pedras dá a impressão de que o rio doce está com as costelas expostas, está faminto”.

Pesca hoje só no reservatório da usina. E, mesmo assim, o peixe está
desaparecendo. “Eles foram embora, cascudo, pacumã, lagosta, acabou”, conta o pescador Israel Madeira. Até o presidente da Associação dos Pescadores, Benildes Madeira, já pensa em desistir. “Eu quero estudar para tentar outra atividade, apesar de já ter 40 anos. Na pesca eu já fiz o investimento que eu pude”.

A usina de Aimorés foi erguida por um consórcio entre a Companhia Vale do Rio Doce e a Cemig, Companhia Energética de Minas Gerais. Segundo o gerente Rubião do Val, a obra não mudou o antigo leito do rio Doce. “Houve o desvio dessa água para geração, mas mesmo que essa água tivesse correndo ao longo do rio, a calha é inclinada e essa inclinação joga para uma falha geológica que absorve toda essa quantidade de água, independentemente da presença da usina. Essa água que vem no período de seca ela não mudaria significativamente a paisagem da forma que está”.

Não é o que pensa o diretor de meio ambiente da prefeitura, Lupércio Castro. “A gente tem 16 metros cúbicos por segundo passando no rio. Antes tinha uma vazão média de 340 metros cúbicos. Hoje passam menos de 5% do rio”.

É verdade que no começo o consórcio apresentou uma proposta de ter sempre uma lâmina d’água? “Sim. Isso deixou a população bastante tranqüila porque o que a gente mais queria era que mantivesse a água passando em tempo integral. E isso nunca aconteceu”, completa.

Bem ao lado da paisagem triste e de tanta polêmica, a mata aparece como um oásis. Mas o lugar estava longe de ser bonito quando Lélia e Sebastião deram o primeiro passo rumo ao sonho: transformar a fazenda degradada em floresta. E criaram uma RPPN - Reserva Particular do Patrimônio Natural. O reconhecimento oficial foi difícil, afinal, como dar o status de reserva para uma área onde praticamente não existia árvore? Pois foi assim que surgiu o Instituto Terra, uma associação civil, sem fins lucrativos, voltada para a preservação do meio ambiente, com ênfase em reflorestamento, educação e pesquisa. “A gente começou a ver que a gente ia plantar um lindo jardim aqui, privado. Aí veio a idéia de que a gente poderia transmitir a tecnologia, que isso serviria para a região inteira. Na verdade, a gente tinha uma idéia e foi regando essa idéia e isso foi se transformando num ideal, com as pessoas junto... numa planta imensa”, diz o casal.

Foram anos de estudos e projetos até a festa de lançamento do instituto. Gente famosa participou do evento: Chico Buarque, compositor e membro do conselho consultivo do Instituto Terra. As crianças da cidade fizeram o primeiro plantio, até então com mudas doadas.

Texto do site Globo Rural e fotos do Instituto Terra

Fonte/Autor: Matéria do programa Globo Rural

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