Em sua terceira edição o Festival de Inverno Bahia apostou na lei universal dos “opostos se atraem” para seu sucesso. E talvez fosse realmente à combinação antagônica do frio conquistense e do calor humano das milhares de pessoas que foram ao Parque de Exposição Teopompo de Almeida a partir da noite de sexta-feira (17) que residiu a energia maior para os três dias do evento.
Homenageando este ano o cineasta Glauber Rocha, filho de Vitória da Conquista e um dos maiores ícones do cinema brasileiro e mundial, o Festival desta vez procurou situar a identidade da cidade no mapa cultural do país. Para isso, contou ainda na abertura do evento com o também conquistense Elomar Figueira como a primeira (e curtíssima) atração da programação. Depois disso, foi só Rock’n Roll, no melhor estilo anos 80.
O primeiro show da noite foi do cantor Leoni. Considerado por muitos um “hitmaker”, com um estilo bem pop, cantou músicas que o consagraram desde seus tempos como integrante do Kid Abelha e posteriormente Heróis da Resistência, fazendo o público vibrar com sucessos como “Por que Não Eu?”, em parceria com Herbert Vianna e Paula Toller.
Em seguida, foi hora e a vez de Lulu Santos. Com um show tecnicamente impecável, Lulu pontuou novos e velhos hits, além de dar uma amostra do seu novo trabalho, o cd “Long-play”, uma volta aos temas menos conceituais que o acompanharam em seus trabalhos mais recentes. Ao fim da apresentação não houve quem não se perguntasse onde fora parar “Como Uma Onda”, uma das músicas mais conhecidas do artista, mas Lulu – também conhecido em seus shows por não falar com fãs e a imprensa - já tinha seu próprio repertório bem afinadinho e, mas não deixou o público parado um só segundo.
A noite do primeiro dia terminou em grande estilo com o grupo Ira!, tocando os revivals que os consagraram como ícone do estilo mais pesado do rock pop nacional, músicas novas já consagradas em um acústico MTV, além daquilo que eles próprios chamaram de “a música da Pitty”, em referência a “Eu Quero Sempre Mais”, gravado com a roqueira baiana.
No sábado (18), o som internacional carioca Danni Carlos, fez o público conhecer e reconhecer uma nova roupagem de músicas como “Kiss”, antigo sucesso do cantor Tom Jones e “Sweet Child O’Mine”, da banda Guns N’ Roses. Era apenas o início da segunda noite de shows que terminaria com a apresentação do Papas da Língua, uma banda com um estilo leve e com um hit que os precedia, a música “Eu Sei”, que fez o público cantar num coro afinado.
Mas a grande expectativa do segundo dia ficou por conta de Herbet Vianna, João Barone e Bi Ribeiro, os Paralamas do Sucesso. Dotados de uma legião de fãs em todo o país, o grupo musical é até os dias de hoje uma referência do rock politizado, com altas doses de poesia, métrica e muito sucesso de público. Não foi diferente no festival, desde “Vital e sua Moto” passando por “Uma Brasileira” até os novos sucessos da carreira, os Paralamas misturam nostalgia, histórias de amor e o mais puro e atual rock nacional.
O último dia foi marcado pelo suingue e pela energia. Ao som músicas com alta influência rítmica negra a Banda Djamba e o cantor Cláudio Zoli esquentaram o palco principal do Festival. Mas foi sem dúvida a maioria esmagadora dos adolescentes que deram o tom da noite com a subida no palco da banda Charlie Brown Jr. O vocalista Chorão, em perfeita sintonia com a galera do skate & cia, contaminou o público com uma energia fora do comum. Sucessos como “Não Uso Sapato”, “Zóio de Lua” e “Lutar Pelo Que É Meu” – tema da novela teen Malhação, da TV Globo – fizeram o público participar feliz e suado da última atração principal apresentada no Festival de Inverno Bahia em 2007.
Alternativas em espaços ativamente alternados
Uma das marcas do Festival de Inverno é a diversidade. Por todo o Parque de Exposições onde o evento se realizou e que atraiu pessoas de todo o estado, não apenas o intervalo entre os shows do palco principal, mas durante todo o evento, era possível encontrar diversas áreas de convivências e as atrações alternativas para os mais variados gostos. Dos camarotes vips com seus DJ’s e alimentações exclusivas à Tenda Eletrônica, do Espaço Gourmet (com espaço até um café-livraria) ao Barracão Universitário onde o forró não cedeu um só instante e mal se podia achar uma vaga para dançar. E se ainda não se desse por satisfeito qualquer um ainda poderia passar uma deslizante meia hora no rinque de patinação no gelo.
Passado e presente com mérito
Em entrevista ao Nossa Cara.com, o vocalista do Ira! falou sobre a onda Anos 80 que abriu espaço para bandas e artistas da época que permitiram a estes um novo fôlego nos últimos anos. Segundo Nazi, “bandas como o Ira, os Paralamas, o próprio Lulu Santos, estão aí até hoje porque fazem um trabalho consistente” e que “esse olhar para os anos 80 tem muito de mito, porque nessa época também havia muita coisa ruim, e é um erro afirmar somente essa aura de grandes sucessos. Lógico que era o período da abertura política no país e isso deve ser um dos motivos para essa coisa toda, mas endeusar não”.
Também o próprio Leoni mostrou que a preocupação de reinventar-se para as novas gerações é o elo entre o passado (suas raízes) e o presente, aquilo que dialoga com o público: “acho, por exemplo, que essas músicas baixadas pela internet são um caminho natural e inevitável, mas que tem que ser tratada com responsabilidade porque é o investimento e a vida do artista ali, e isso deve ser pensado”.
Texto e fotos: Marcelo Lopes
Fonte/Autor: Marcelo Lopes