Bairro Pequi: um cinquentão com muita história

Por: Teoney Guerra
21/01/2021 - 08:46:22

Por: Teoney Guerra*

Dentre os creca de quarenta bairros da cidade de Eunápolis, o Pequi, o mais populoso, é, sem dúvida, o mais importante, pelo menos no aspecto histórico.

Por cerca de 15 anos, o bairro sediou a administração municipal de Santa Cruz Cabrália, e por outros 9 anos, a administração municipal de Eunápolis. Também foi no Pequi que foi criada a CDL Eunápolis.
O Pequi está também ligado a festas populares, à boemia eunapolitana, por ter sido, ao longo de meio século da sua existência, um reduto de boa parte das noitadas de bebedeiras de muitos boêmios locais, e madrugadas de sexo nas alcovas do baixo meretrício ali existente.

O início do povoamento naquele local remonta ao início da década de 1950 do século passado, com a fixação de algumas famílias em barracos de madeira, nas imediações de onde é hoje o Mercado de Carnes, onde havia um exemplar muito alto e frondoso da árvore pequi.

Entre o início e meados daquela mesma década, sepultaram, onde hoje é a praça Paulo VI, um local então inóspito, o corpo de uma mulher que esmolava nas ruas da povoação, e morreu de uma doença desconhecida, que as autoridades imaginavam ser contagiosa. Depois desse sepultamento, o local passou a ser o cemitério, desativando-se então o outro, localizado nas proximidades das ruas Ruy Barbosa e Dois de Julho.

Com o decorrer do tempo, outras famílias construíram mais barracos de madeira e casinhas de taipa, - casinhas feitas de cipós trançados e barro -, se instalando naquele local, próximo ao “pé de pequi”, criando uma “invasão”: ocupação em uma área particular, sem nenhum serviço básico ou infraestrutura, onde predominavam as péssimas condições de higiene e habitabilidade.

Como o povoado de Eunápolis foi criado em área limítrofe dos municípios de Santa Cruz Cabrália e Porto Seguro, e aquele local pertencia a Cabrália, o então prefeito, Alcides Lacerda, desativou o cemitério em 1971, construindo outro um pouco distante, o Cemitério da Consolação, e em seguida, realizou uma série de ações administrativas. Foi feito o ordenamento de ruas, a construção do Mercado – hoje o Mercado de Carnes –, de uma escola, e, decidido que estava o prefeito em trazer para Eunápolis a sede da administração municipal de Cabrália, deu início às obras do prédio que sediaria a administração - prefeitura. Prédio que foi concluído em cerca de dois anos, e passou a sediar a administração municipal. Ou seja: o prefeito Alcides Lacerda, em um ato ousado, de muita coragem mesmo, tirou a prefeitura da cidade de Santa Cruz Cabrália, transferindo-a, para o então povoado.

Foram essas ações que tornaram “a invasão” um bairro, que recebeu o nome de Pequi – em razão daquela árvore existente no local. Informações verbais dão conta de que as famílias Abade Guerreiro, Germino e João Porto foram as pioneiras do bairro.

A partir daí, aumentou de forma exponencial o povoamento e desenvolvimento do Pequi, com a abertura de lojas e empresas de diversos ramos e setores econômicos. Entre os novos habitantes, chegaram ao bairro, por volta de 1974, os donos e as moradoras de cerca de três dezenas de casas de prostituição e botecos de um prostíbulo que ocupava o primeiro quarteirão – de um lado e do outro - da avenida Porto Seguro que fora desativado*.

O Pequi foi cenário de um importante capítulo na história do movimento lojista eunapolitano. Foi na churrascaria A Chácara, localizada onde hoje é a Creche Ayrton Senna, que em uma assembleia geral realizada no dia 12 de dezembro de 1981, gerentes lojistas fundaram o então Clube dos Diretores Lojistas de Eunápolis, atual Câmara dos Dirigentes Lojistas de Eunápolis (CDL Eunápolis).

Sede da administração municipal de Santa Cruz Cabrália a partir de meados de 1973/74, o bairro se tornou sede da administração de Eunápolis a partir de janeiro de 1989 – data em que o município, emancipado, foi instalado. Situação que perdurou até janeiro de 1997, quando, o prefeito recém-empossado, Paulo Dapé, transferiu a sede do governo do Pequi, para o “Palácio Beija-Flor”, no centro da cidade.

No ano de 1993, os frades Capuchinhos, que doaram à Diocese recém-criada, suas instalações no centro da cidade, se mudaram para o Pequi, instalando no bairro a Fraternidade São Francisco de Assis, o Seminário dos Frades Capuchinhos, e o Centro de Formação para Vocacionados e Postulantes. A presença dos capuchinhos ali contribuiu para a criação da paróquia São Francisco de Assis, em 25 de agosto de 2001.

ARQUITETURA - Cinquenta anos depois de fundado, o bairro não apresenta, no seu casario, aquela característica própria das primeiras construções ali erguidas: as casinhas de taipa, com porta e janela na fachada e telhado baixo. Vê-se por todas as ruas, todo tipo de construção, de fachada. Desde casas um pouco parecidas com as primeiras, outras, antigas, com fachadas largas e telhados altos, sobradinhos com dois pavimentos, casas com padrões construtivos mais modernos, com varandas, portas e janelas de vidro, e outros imóveis com características variadas. Olhando mais atentamente é possível notar que, quando ali se constrói, há uma preocupação em se ter casas com padrões “arquitetônicos” mais modernos.

CARACTERÍSTICAS SOCIOCULTURAIS - O Pequi ainda guarda aquele jeito de cidadezinha do interior. Muitas residências ficam de portas abertas durante praticamente todo o dia, e crianças e adolescentes ainda brincam nas vias públicas, por onde correm descalças. Em muitas ruas, pais e filhos moram no mesmo quarteirão, em casas vizinhas, ou no mesmo terreno, tendo o quintal como área comum.

Outro comportamento típico das cidadezinhas interioranas que pode ser observado no Pequi, diz respeito às relações entre os vizinhos. Praticamente todos se conhecem, e uns frequentam as casas dos outros cotidianamente, mantendo aquela intimidade que permite a um, em casos especiais, ir à casa ao lado e pedir “emprestado” um pouco de café, açúcar, ou levar para a vizinha ou comadre, um pedaço do bolo, uns biscoitos ou um pouco da comida que acabou de ser feita.

Residências, bares e outros estabelecimentos comerciais, oficinas mecânicas e templos religiosos, muitas vezes, dividem o mesmo quarteirão, numa convivência que, apesar de às vezes, não ser totalmente pacífica entre os seus ocupantes, se vai levando. Não deixa de haver, entretanto, algumas malquerenças e inimizades que, de vez em quando, terminam em atritos com discussões nas calçadas, e até algumas brigas nas ruas.

Apesar do estigma que acompanha o Pequi, como sendo um bairro violento, é normal ver pessoas sentadas nas cadeiras, nas portas das casas, especialmente à tarde. E ao tratar com algum morador sobre esse assunto, quase sempre há, por parte dele, uma resposta pronta, na ponta da língua: “e onde não tem violência?”. Uma coisa é fato: morador do Pequi ama o seu bairro!
VIDA NOTURNA – Maior e mais importante bairro de Eunápolis, o Pequi sempre teve uma intensa movimentação noturna. Os bares, casas noturnas e as “casas de raparigas”, além de terem a frequência do público local, atraíam também os boêmios da região central e de outros bairros. Porém, a movimentação noturna não se resumia a essas opções. O São João sempre foi muito movimentado no bairro, realizado com barraquinhas, comidas e bebidas típicas, forrós e fogueiras – quando esse tipo de manifestação era permitido.

Entre 1989 e fins da década seguinte, o Show de Calouros do Pestana animou muitas noites no bairro, sempre realizado nos sábados e domingos. Multidões estimadas em até 10 mil pessoas lotavam à Praça Paulo VI, até com torcidas organizadas, para torcer, cada torcida, pelos seus calouros preferidos. No mesmo período, funcionou no bairro o cinema Coral II, que exibia, todas as noites, filmes os mais variados. Nas sextas-feiras, após as 22: horas, ao fim da sessão normal, eram exibidas outras duas sessões, exclusivas para maiores de 18 anos, de filmes de sexo explícito, sendo a primeira sessão somente para as mulheres, e a segunda para os homens.

Também se comemorava no Pequi, o Carnaval, que era bem animado, e tinha a participação dos blocos carnavalescos e “cordões de caboclo”, manifestação folclórica que não existe mais.  

ATIVIDADES PRODUTIVAS – O Pequi é praticamente uma cidade dentro de Eunápolis. Ali há feira boa, “sortida”, açougues, comércio muito variado, contendo desde revenda de motos e veículos, filial de grande rede de supermercado, lojas de eletros, restaurante, pizzaria, óticas, funerárias, lojas pet, distribuidoras de água e gás, até serviços de saúde, como consultório médicos, odontológicos e laboratórios de análises clínicas. Interessante é que lá o comércio funciona - quase todo ele - também nas manhãs dos domingos. É um comércio que chega a concorrer com os estabelecimentos da região central da cidade. Houve um período, até por volta da década passada, mais ou menos, em que o comércio de lá era tão pujante que os empresários chegaram a se reunir em uma associação, a UNECOMPEQUI (União dos Comerciantes do Pequi), que organizava o comercio, e realizava campanhas de promoção de vendas, como a distribuição de prêmios – como a CDL realiza com o comércio da região central da cidade. A associação ainda existe, mas está desativada.  

SERVIÇOS - No que tange aos serviços públicos, o bairro dispõe do Hospital Regional, dois postos de saúde, o hemocentro, escolas de primeiro e segundo graus, ginásio de esporte e quadras poliesportivas cobertas, o Departamento de Polícia Técnica (DPT), entre outros equipamentos e órgãos oficiais. Há, entretanto, muitas deficiências nas áreas de saneamento e infraestrutura.

O bairro dispõe ainda de escolas particulares, lan houses, quase uma centena de templos religiosos, terreiros de candomblé, muitos bares que promovem noites animadas, casas de prostitutas... Enfim, no Pequi tem de tudo, e não por acaso, é o maior bairro mais popular de Eunápolis.
 
*A desativação do prostíbulo da avenida Porto Seguro deu-se da seguinte forma: um empresário comprou alguns desses imóveis que compunham o prostíbulo, onde construiu a sede de sua empresa, que passou a ocupar quase uma metade do quarteirão, e os donos das demais casas de prostituição foram saindo daquele local, vendendo os seus imóveis, e se mudando para o Pequi, até o puteiro deixar de existir.

*Teoney Guerra é pesquisador da história de Eunápolis


 

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