
Rodovia foi o grande fator de desenvolvimento e integração da região à economia nacional
Por: Teoney Guerra
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Na segunda quinzena de abril de 1973 – há informação não oficial de que teria sido no dia 22 -, era concluída e entregue à população, sem solenidade oficial, o trecho da rodovia BR 101, que corta o extremo sul baiano. A estrada federal cujo nome oficial é Governador Mário Covas, tem seu ponto inicial na cidade de Touros (RN) e o ponto final em São José do Norte (RS).
No extremo sul baiano, essa rodovia federal teve sua origem na BA 02, uma estrada estadual em fase de construção, sem pavimentação, que na segunda metade da década de 1960 foi entregue pelo governo do Estado ao governo federal, que a integrou ao projeto da BR 101. Uma das principais vias rodoviárias do país, que tinha como objetivo, unir o sul ao norte pelo litoral.
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A sua construção teve início ainda naquela década, e concluída em 1973. Foi o fator de desenvolvimento do extremo sul baiano, então, uma imensidão de terras quase desabitadas, com uma ocupação mais definida na faixa litorânea. As poucas localidades então existentes eram interligadas por caminhos tortuosos e muitas vezes íngremes, existentes por dentro da mata, onde transitavam cavalos, burros, mulas, jumentos carregando pessoas e as tropas*, que conduziam as mais variadas cargas, desde o sal, querosene e outros produtos industrializados, do litoral para o interior, até as mantas de carne, o toucinho, feijão, milho e outros gêneros alimentícios, das regiões produtoras para os mercados consumidores.
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Na época, em toda a região, o transporte aéreo era também muito utilizado para o transporte de pessoas, feito por pequenos aviões, denominados popularmente de “teco-tecos”. Em praticamente toda povoação, por menor que fosse, havia um campo de pouso. Os negócios e o transporte de doentes eram os motivos mais comuns para as viagens. As cidades de Belmonte e Canavieiras, onde estavam instalados os cartórios, bancos, coletorias e outros órgãos, eram os principais destinos. Algumas localidades eram servidas por linhas regulares. Em outras, a empresa – os taxis aéreos, hoje – mantinha no local quatro ou cinco aviões que eram utilizados de acordo com as necessidades da comunidade, em voos fretados. O povoado de Arraial d’Ajuda, pequena povoação, ponto de fé de romeiros que anualmente visitavam o santuário, abrigava um importante Campo de Pouso – denominado de Aeroporto - construído entre o final da década de 1930 e o início de 40, para servir como base às operações das forças combatentes na 2ª Guerra Mundial. Uma linha regular operada por aviões com capacidade para cerca de 40 passageiros, fazia o transporte de pessoas entre a povoação e a capital, Salvador.
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A construção desse trecho da BR 101 permitiu o desenvolvimento econômico do extremo sul baiano, tendo como pilares, a denominada “indústria madeireira” e o turismo, e a integração da região à economia nacional. A exploração madeireira teve como mais importantes agentes, mineiros e principalmente capixabas, que aqui instalaram centenas de serrarias. Com elas, vieram outros negócios afins, como empresas de assistência técnica de máquinas e equipamentos e lojas de peças, além de outros negócios e um enorme contingente de pessoas que buscavam oportunidades de trabalho, entre eles, muitos profissionais liberais.
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Essa atividade econômica motivou também o rápido povoamento do extremo sul baiano, com o desenvolvimento de pequenas povoações existentes ao longo da extensão da nova rodovia, como Eunápolis e Itabela. Assim, a região quase inóspita nos anos 60, passou a ter 456.463** habitantes em 1980.
A outra vertente de desenvolvimento regional se deu com o desenvolvimento do turismo nas cidades litorâneas, em especial Porto Seguro.
Mas, o desenvolvimento baseado na exploração madeireira causou a rápida devastação da mata atlântica na região. Ainda nos anos 60, a mata nativa encobria cerca de 40% de toda a área do extremo sul, enquanto no final dos anos 90, quando a sua exploração foi proibida, restavam apenas cerca de 4%.
Ainda hoje, a BR 101 é fator de desenvolvimento para o extremo sul baiano, não apenas pelos milhares de veículos que transitam pela rodovia a cada dia, mas também por torna-lo estratégico no contexto rodoviário do país, uma espécie de “cruzamento” que dá acesso às regiões Norte, Sul, Sudeste e Centro Oeste.
*Comitivas de animais de carga conduzidas por guias, chamados tropeiros, que transitavam por caminhos abertos na mata nativa.
**Dado da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI).