Eunápolis e as características que ainda guarda, de quando era povoado

Por: Teoney Guerra
10/05/2012 - 21:22:13

Por: Teoney Guerra*

Apesar dos seus mais de 100 mil habitantes, o PIB de mais de R$ 1 bilhão e a violência que grassa em determinados bairros, a cidade de Eunápolis ainda preserva alguns aspectos de quando ainda era povoado, com casas rústicas, feitas de taipa e coladas umas nas outras.

A povoação cresceu, virou cidade, porém, ainda é possível observar cenas cotidianas que normalmente só são vistas em pequenas cidades dos confins do interior, onde a vida modorrenta transcorre como se o tempo houvesse parado.

As mesmas casas rústicas, baixinhas e pequenas dos anos 40 e 50 do século passado, mal conservadas, ainda podem ser vistas, especialmente no bairro Dr. Gusmão, o mais antigo da cidade. São poucos esses exemplares, e a tendência é que em breve, nem uma delas seja preservada para registrar a memória de um tempo em que a localidade foi uma pequena povoação erguida em torno de um acampamento de trabalhadores.

E é no bairro Gusmão, onde prevalecem as casas e os moradores antigos, que cenas pouco convencionais nos dias de hoje, podem ser vistas, em pleno dia de trabalho e de correria.

Numa manhã ou tarde de qualquer dia da semana, ainda é possível ver senhores aposentados, sem camisa e descalços, jogando Dominó na calçada, à sombra de árvores. Também faz parte da cena urbana, vendedores de frutas, verduras e temperos percorrem sem pressa as ruas sem calçamentos ou calçadas de pedras, parando de porta em porta, oferecendo os produtos chamando a dona de cada casa pelo nome, demonstrando conhecer cada uma daquelas freguesas.

Também é comum, vizinhas conversarem na calçada, vassouras nas mãos, o serviço de cada dia parado, como se falassem da vida alheia coisas que a vizinhança não pode ou não precisa saber. Em outra rua, dois senhores, cada qual sentado numa cadeira, também na calçada de suas respectivas casas, próximo à porta, falam sobre a tradição que há, lá para as bandas do sertão, de se plantar o milho no dia de São José, para colhê-lo no São João. Tradição não cultuada neste lado de baixo da Bahia.

Porém, a imagem mais surreal pode ser vista na rua Guarany, em frente à casa de número 832. Na calçada, sob uma árvore, uma senhora de cor negra, forte, risonha e cabelos já brancos passa longos períodos do dia sentada num sofá - já um tanto desgastado , mais ainda útil. “Aqui eu tomo uma fresquinha; fico aqui bestando, fazendo uma coisa ou outra, assim, passando o dia”, se explica dona Cremilda Maria de Jesus, 72 anos. Enquanto conversa com um ou outro que passa e a cumprimenta, a idosa vai terminando a costura de uma colcha que, no próximo final de semana vai cobrir o colchão da sua cama. “Já fiz uma para minha neta; essa aqui é minha”, diz brincando. 

O sofá fica naquele local, na calçada, há vários anos. Dia e noite, sem ninguém tirar doo lugar ou mexer, como se fosse a sala de visita da casa apertada, de três cômodos, onde mora com a filha e uma neta.

Inusitado também é o que se vê no mesmo quarteirão, nas casas de trás, no cruzamento da rua Canavieiras com Tamoios. No prédio da esquina funciona o Duda Bar, de propriedade do seu José Domingos, com mesas e cadeiras arrumadas sobre a calçada, como manda a tradição brasileira, e no passeio do prédio ao lado, onde mora o dono, um toldo, tendo embaixo uma mesa de sinuca pequena, com o quadro de anotações dos pontos e o porta-tacos pendurados na parede. “Deixo a mesa aí há quase um ano. O pessoal gostam de jogar aí, ficam à vontade”, justifica o comerciante.  

Assim, a vida segue lânguida nesse pedacinho de Eunápolis distante no tempo e pouco presente na memória de uma gente que, ocupada e com tanta pressa, não tem tempo para ver, curtir essas reminiscências, fragmentos da nossa história.

*Teoney Guerra é jornalista e pesquisador da História de Eunápolis e microrregião.

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