Ronaldo Duran

Por: NossaCara.com
29/11/2009 - 10:02:03

CAÇA-FORTUNA

“Não é possível que a sorte se esqueça de mim”, ia ela reclamando, andando pela Avenida Paulista. Desceu a Pamplona, e num sobradinho bem judiado, se enfiou. Logo à porta, recolhe as correspondências, e como é clichê para quem não tem dinheiro, reclamou pela segunda vez, lançando o maço de envelopes em cima da mesa.

Publicitária desempregada. Tantos sonhos enterrados. Tantas esperanças mortas. Fantasias abortadas. Caminhou para a geladeira. Sim, está vazia, mas é menos pelo clichê de pobretona que pela dieta que jurou seguir logo que rompesse o ano de 2008. Ora, essa pequena burguesa de Marília tinha o mínimo para sobreviver. O pai, coronel aposentado da Polícia Militar, lhe dava pensão para comer e morar. Claro, uma pessoa que tem sonhos altos, esse mínimo se afigura como migalha.

Havia ligado o computador há meia hora. A leitura de um e-mail acentuou a dor de cotovelo. Uma amiga arranjara um amor e iria se casar. Era um sujeito bem de vida lá de Milão. “Que droga!”, suspirou. Sim, gostou da notícia. Afinal, era sua amiga. Se ela reclamou pela terceira vez, foi por culpa de sua auto-estima que despencara. “Até a Lígia, que era motivo de caçoada na faculdade, arranjou um bom partido”. Pelo desabafo, nota-se quão magoada a garota de 29 anos está.

Há um ano separada do segundo casamento. Casara primeiro aos 17 anos. O cara era um bêbado, irresponsável, que só vivia na barba ora dos pais dele ora dos pais dela. Na segunda vez, o cara era um universitário sonhador, líder estudantil, e muito irresponsável, sequer tinha trabalho fixo, vivia de bico, pouca diferença tinha em relação ao primeiro, com exceção de não ser mulherengo.

Estava farta de malandro. Queria um marido de verdade. Aquele que banca as contas, que mantém uma casa, que tem carro e é o próprio motorista. “Um macho de verdade, não estes aproveitadores moleques que andam por aí”, dizia para si. Foi quando leu uma matéria, na internet, de casamento com gringos. Gostou da notícia. Duas agências destacavam-se, segundo a reportagem. No final da leitura, acessou o site da agência... Uma semana depois comparecia a uma entrevista. Seis meses ela estava diante de um americano, cinqüentão, do cinturão do trigo. Tinha posses. Era educado, cavalheiro. Adorou. O que são vinte e um anos de diferença. Nada, hoje em dia.

Passado um ano de casada, sentia-se realizada. Amava-o? Não como nos outros relacionamentos. Valia pela segurança. Não somente pela grana, mas por ser tratada como princesa. Ele abria a porta do carro para ela entrar. No restaurante, só se sentava depois dela. Não olhava para as mulheres quando estava ao seu lado e, sobretudo, parecia que estava contente ao lado dela. Que mais desejaria? Havia caçado a fortuna ideal: ser tratada como mulher, delicada, dependente de um homem carinhoso e tutor.

Ronaldo Duran, romancista, colabora neste jornal toda semana.
Contato: ronaldo@ronaldoduran.com     twitter: ronaldoduran_
 

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