
Por: Ronaldo Duran
Desço na estação Armênia. Nunca sei o lado certo para descer e acabo dando
uma volta enorme. O evento marcado para 8h00. Estou adiantado, visto que faltam dez minutos para as sete.
A birosca do seu Manuel. Cafezinho e uma fatia de bolo fazem meu desjejum. O lugar afugentaria mocinhas e senhoras classe média. Meu terno e grava destoariam do ambiente? Não na cidade de São Paulo. Rapidamente entro no prédio sede do evento. A rústica birosca cede lugar ao ambiente fino. Ambos me atraem. Sou socialista, gosto de pessoas.
Estava certo que repetiria o ritual do evento anterior. Leria até o pessoal chegar. De repente duas mulheres aparecem. Uma é minha chefa, aliás, uma das minhas muitas chefas. Nem ligo. Nada contra ser gerenciado.
A outra é colega de trabalho. Cumprimentam-me e puxam conversa. A leitura foi pro brejo.
Ambas estão empenhadas na organização do evento. Estávamos numa prosa legal, descompromissada, quando o responsável pelo estabelecimento apresentou-se. Além de disponibilizar-se, avisa que os comes e bebes, perdão, as iguarias estão sendo entregues.
A chefa logo desceu as escadarias. Missão: averiguar posição dos recepcionistas, as entregas, as listas de convidados, e uma infinidade de detalhes que me escapariam lembrar. Ela é pura agitação. Vendo-a circular, até eu, reservado, sinto um quê de empolgação vibrar meu ser.
Horas agitadas, e por fim o momento da parada. Fora convidada para conduzir o debate espinhoso sobre “Extinção da CPMF e Impacto Nas Contas Públicas”. Era mediadora. O rosto constrito denunciava inquietude. A posição de mera ouvinte a perturbava. Parecia-me que tremia. Encarava a platéia, para manter-se segura. O seu olhar encontrou o meu, como a pedir “como saio desta...”. Nada de errado, seu espírito dinâmico, agitado, rebela-se naturalmente contra a passividade, mesmo a de um mediador.
Tive tempo de admirar a mulher organizada. Nunca fui machista. Mas confesso que um não sei quê me deixa tonto quando a vejo em ação: chamar atenção de um motorista alcoolizado antes que ele nos leve para uma cidade interiorana, solicitar revisão minuciosa de balancetes. Tão segura de si, tão assertiva. Parece saber sempre o que quer. Jamais hesita.
O que importa é que sendo contador nesta empresa durante anos, estou empolgado diante de minha nova chefa.
* Romancista, escreve nesta coluna semanalmente.
Contato: www.informativoliteraturaviva.blogspot.com