Ronaldo Duran

Por: NossaCara.com
25/08/2009 - 22:07:47

VIDA DE CASADO

Na faculdade, os camaradas se despendem e gritam um feliz feriado prolongado. Ronaldo Duran é escritor e romancista e colunista do Nossa Cara.comEu sou todo incentivo. Verdadeiramente devolvo o entusiasmo. Mas de minha parte não me sinto motivado. Levantar tarde é ótimo. Não ter que pular da cama de madrugada e mergulhar na correria para escovar dentes, lavar rosto, vestir e sair em desespero atrás do ônibus, melhor ainda. Este é o lado bom do feriado. Contudo, há o espinho: a falta de grana.

Pior do que falta de grana é estar casado e brigado. Com pouca grana, pensar em ir para o litoral ou para a serra mostra-se desaconselhado. Ainda que tenhamos carro, precisa combustível, alimentação, pousada. Os filhos são uma canseira. Bens mais preciosos de minha vida, sim, mas nem por isso deixam de pesar em momentos críticos como no feriado.

Se a relação conjugal está balançada? Provável que o caldo esquente de tal forma que pareço mergulhado numa sauna acima de 100ºC. Durante a semana, a gente se esquiva, dá um beijo apressado. Ela deitada na cama, sonolenta, sem forças para reclamar. Na chegada do serviço, o peso do dia sugou-lhe parte da força. Graças aos céus, falta ânimo ou vontade para debater. No fim de semana a situação complica, talvez por não se ter para onde fugir. Encurralado. O negócio é ceder os ouvidos às repreensões. Ficar calmo. Tem ocasião que chuto o balde e por um triz o casamento não entra na estatística dos fracassados.

Vem à tona a conta pendente, a lamúria, o você-não-me-dá-mais-atenção, o no-começo-você-soube-me-enganar, o não-sabia-que-tinha-duas-caras, o   irresponsável-com-as-contas. A lista torna-se infindável. Quando atravessamos a maré, sem ofensas, ainda há os deveres com a casa. Lavar louça, varrer quintal, limpar banheiro, ir ao supermercado, tirar roupa de cama para lavar...

Um pouco de prazer. Ao meio dia corro na rotisserie, pego com o almoço uns bolinhos de bacalhau ou de frango. Faço um litro de suco de laranja. Saboreio os salgados, enquanto preparo o almoço. Ponho os pratos, copos, talheres na mesa. A televisão exibe o programa ao qual estou acostumado aos domingos. Animado, chamo a turma para almoçar. À tarde, quando os filhos forem tirar o cochilo ou se entreterem com jogos ou filme eu aproveito para ler lá no fundo do quintal. E ainda que venha a parentada, não me movo.

Após a leitura dominical, relaxado, estou pronto para ir passar minhas roupas para a semana e na segunda-feira lecionar história na UEP.

Por: Ronaldo Duran, romancista, escreve nesta semanalmente.
Contato:
ronaldo@ronaldoduran.com

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