Essa região está vivendo a mercê da multinacional Veracel Celulose. Nada pode interferir no avanço do plantio de eucalipto. Todas as tentativas de conter a invasão dessa monocultura foram em vão. O pior é que, a cada dia aumenta consideravelmente o plantio, especialmente com a expectativa de ampliar a fábrica e conseqüentemente a produção de celulose branca, principal produto da mega indústria, ainda nesse ano, o que leva a crer que mais e mais eucalipto seja plantado.
Segundo gráfico fornecido pela Veracel, em toda área destinada ao plantio de eucalipto, nos oito municípios que compreende a micro região da Costa do Descobrimento, num total de 1.421.771 hectares, incluindo o fomento, foram plantados em Eunápolis pouco mais de 14%, enquanto em Santa Cruz Cabrália já foram plantados quase o total permitido pelos órgãos ambientais que é de apenas 15 % em cidades litorâneas, contra 20 % nos demais municípios. Em Itabela, segundo a Veracel, apenas 4,4% dos 20% permitidos para plantio foram ocupados com eucalipto e em Itapebi 0,8%, enquanto em Guaratinga 0,2% e em Itagimirim 5,0%, e Porto Seguro 4,5%. Esses dados são do mês de abril do ano passado, de lá para cá, certamente esses números não são mais os mesmos.
Esses dados são contestados pelos ambientalistas que afirmam que a |
Vejam senhores leitores, que após a placa que aparece na foto, tem uma cerca. Naquele local o terreno já está pronto para plantar 90 hectares de eucalípto há menos de 50 metros dos fundos da igrejinha do Ponto Maneca. |
Veracel já Vejam senhores leitores, que após a placa que aparece na foto, tem uma cerca. Naquele local o terreno já está pronto para plantar 90 hectares de eucalipto há menos de 50 metros dos fundos da igrejinha do Ponto Maneca. Ultrapassou, em alguns municípios como Eunápolis o índice aceito pelos órgãos de defesa ambiental. Polêmica à parte o que se tem certeza é que comunidades inteiras já foram dizimadas do mapa pela Veracel, como o antigo povoado da Marília, no município de Itapebi e outros, como o ponto Maneca em Eunápolis e Ponto Central em Belmonte, correm também o risco de sair do mapa, apagando da memória de seus moradores sua verdadeira origem, especialmente as crianças que, no futuro próximo, perderão suas identidades e suas origens.
Em visita ao Ponto Maneca, quando estiveram presentes, o diretor e repórter fotográfico do jornal eletrônico nossacara.com, Urbino Brito e o editor do jornal O Farol, Gil Rocha, acompanhados do advogado Dr. José Henrique Barbosa, ex-conselheiro do Conselho de Defesa Ambiente de Eunápolis e defensor fervoroso das questões ambientais dessa região, foram constatados a resistência de alguns moradores daquela localidade em conterem o avanço do plantio de eucalipto, o que infelizmente, não contam com o apoio de todos os proprietários.
A situação no Ponto Maneca está se tornando insustentável, pois, grande parte dos donos de terras das imediações, talvez levados pela ganância e o comodismo, estão dispostos a cederem suas propriedades para a famigerada Veracel, que, sem importar com os danos sociais causados pela invasão, cada vez maior do eucalipto em toda região, vem passando como um rolo compressor, por cima, especialmente dos pequenos e médios produtores rurais, que de ‘produtores rurais’ talvez já nem podem mais ser chamados.
A RESISTÊNCIA
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Este é o Sr. João Lajedo, que tem a sua pequena gleba de terra, completamente cercada pelo eucalipto da Veracel. |
Dentre os que resistem, com suas pequenas glebas de terra, deparamos com o Sr. João Oliveira Mendes, mais conhecido por João Lajedo. Lajedo é dono de uma área de 16 hectares, há 20 anos, cercado por todos os lados com o "fantasma verde", onde sequer, tem a liberdade de avançar um passo de sua pequena propriedade sem estar sendo vigiado pelos guardiões da gigantesca indústria de celulose e de miséria ao mesmo tempo. Miséria pelo aumento do maldito êxodo rural, causado pela compra e arrendamento de terras, desdenhosamente chamado pela Veracel de FOMENTO. João lembra com saudades quando podia contar com seus vizinhos que agora já não mais existem. Lembra o casamento de sua primeira filha, ocorrido naquele mesmo local, quando a casa ficou cheia de amigos, todos moradores da mesma localidade, e que hoje só vê ao seu redor árvores gigantes, todas iguais, do mesmo tamanho; "uma cena triste", afirma João.
João tem de tudo um pouco na sua pequena área: pimenta do reino, coco, banana e. Esta é a plantação de pimenta do reino do Sr. Lajedo, tendo ao fundo o eucalipto outras frutas, além de gado de leite e de |
Esta é a plantação de pimenta do reino do Sr. Lajedo, tendo ao fundo o eucalipto. |
corte, tudo em quantidade modesta, mas que garante o sustento da família, composta por oito pessoas.
Além de todas as mazelas causadas pela Veracel, tem ainda o medo que ronda a propriedade de João. Segundo ele a Veracel mantêm vaqueiros rondando as propriedades rurais para evitar a passagem de animais para as áreas de encostas da Veracel, são áreas não plantadas devido se tratar de margens de córregos e acidentadas, que bem poderiam ser destinadas a pequenos criadores para cria de animais, mas se algum animal ultrapassar as terras da empresa, os vaqueiros da Veracel têm ordens expressas para apreenderem os animais e dar-lhes destinos ignorados; "mais de duas carretas de gado já saíram das imediações com destinos ignorados pelos seus donos", lamenta João.
CONTENDO O PROGRESSO
O Programa Luz Para Todos, criado pelo governo federal com o intuito de desenvolver a agricultura familiar, esbarra com um grande obstáculo promovido pela Veracel; o de não aceitar a passagem de posteamento pelos corredores das áreas plantadas, o que dificulta o acesso dos pequenos produtores à energia; mais um absurdo da Veracel, apoiado pelo próprio governo que é um dos grandes acionistas da mega indústria.
Mas nem todos pensam como João Oliveira. Nem todos resistem como ele. O Sr. João Procópio, tradicional produtor de caprino daquela localidade e que antes mantinha um pequeno laticínio onde produzia derivados de leite de cabra, já dá por vencido. Em uma conversa informal com os editores dessa matéria, deixa claro o seu desânimo, quando afirmou que o fazendeiro é estimulado pelos altos preços oferecidos aos donos de terras pela Veracel e que, "a região está predestinada a se transformar em um celeiro de eucalipto, onde os pequenos proprietários não irão resistir e venderão suas propriedades, quando uns mudarão para a cidade e outros deixarão a região em busca de melhoras e de outras áreas para continuarem na atividade rural" afirmou.
João Procópio implantou em sua fazenda uma estufa com expectativa para produzir, quatro mil pés de alface por mês, até abril desse ano, com um rendimento previsto, a partir do início da produção de R$ 2.000,00 (dois mil reais), mensal. Com o fim da produção de alface, em abril, Procópio irá investir, nas mesmas estufas, em produção de feno, que deverá atingir o preço de R$ 8.000,00 (oito mil reais) o fardo. Mas todo esse projeto de João Procópio poderá ser interrompido se o mesmo resolver passar suas terras para a Veracel; o que seria lastimável.
O FIM DO LAZER
O Ponto Maneca sempre foi conhecido como um ponto de lazer, tanto |
Este é o casal Edson Ângelo e Joélia Miranda com seu filho Arthur, de apenas nove meses de vida. Este garoto no futuro não saberá as suas origens porque o lugar onde nasceu não mais existirá. |
para os moradores da comunidade como para quem reside na cidade. Lá existem dois bares, um campo de futebol, uma igrejinha que mantém cultos e batizados até hoje; naquela igreja até casamentos já foram realizados, Tem ainda uma bela pracinha onde crianças podem brincar a vontade sem serem perturbados pela insegurança da área urbana, além de um ambiente aconchegante cercado por árvores exóticas e até frutíferas. Vários torneios de futebol já foram disputados na localidade, onde ainda se vê uma galeria de troféus em um dos bares, de propriedade de Edson Ângelo Pereira, um dos filhos de Maneca. Edson, que é casado com Joélia Miranda é pai de Arthur, de apenas nove meses, nascido na comunidade e se preocupa com o destino da localidade; "não sei qual será o destino de toda essa área, se for extinta, meu filho, no futuro não saberá nem onde nasceu; uma pena! Não sei o que dizer a ele quando me perguntar, por que não lutamos contra o fim da nossa comunidade, mas, com certeza, estaremos lutando até nossas forças acabarem para preservar o local onde eu e meus filhos nasceram", afirma emocionado.
O PROTESTO
Recentemente moradores do Ponto Maneca, com apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Eunápolis promoveram um protesto contra o avanço do plantio de eucalipto naquela região, com colocação de faixas com frases como: "Comunidade Maneca não Come Eucalipto" e outras. Para infelicidade de alguns moradores, proprietários de terras, que apóiam o plantio de eucalipto arrancaram e rasgaram as faixas, numa demonstração de irresponsabilidade, vale ressaltar que esses que retiraram as faixas nada têm a ver com a região, são pessoas de outras regiões e de outros estados que desconhecem a importância de se manter viva a memória do Ponto Maneca.
Perguntas pairam no ar: O que será do Ponto Maneca, com suas farinheiras produzindo a todo vapor e que sustentam dezenas ou centenas de famílias? Qual o destino das várias famílias que lá residem e não querem se mudar, resistindo até o limite de suas forças contra uma multinacional que sempre contou com o apoio de políticos dos mais altos escalões governamentais? O que o Conselho de Desenvolvimento Ambiental do Município tem a dizer? Resistam até o fim! Não deixem o Ponto Maneca ser dizimado como a Marília!
Fotos: Urbino Brito
Fonte/Autor: Gil Rocha - Jornal o Farol