Localidades estão ameaçadas de extinção em Belmonte

Por: NossaCara.com
05/01/2007 - 12:47:00

Máquinas da empresa de celulose preparam a terra para plantar eucaliptos ao lado do povoado de Barrolandia.

Dona de uma arquitetura que guarda ainda grandes casarões em estilos variados, Belmonte agrada pelo clima ameno proporcionado pela topografia plana e presença do rio Jequitinhonha e do mar. A cidade já foi importante centro comercial na época de ouro do cacau, possuindo um movimentado aeroporto. Suas ruas largas abrigaram naquela época hotéis-cassino, cine-teatro, igrejas e estabelecimentos voltados para o comércio do cacau. No entorno do município várias povoações nasceram, algumas delas dando origem mais tarde a distritos a exemplo de Barrolândia. As povoações que conseguiram sobreviver ao declínio da lavoura cacaueira concentram até hoje famílias de trabalhadores rurais. O manejo do gado e da piaçava além do turismo e do cultivo do cacau, agora em menor

Escola Rainha Silvia, inaugurada com toda pompa hoje totalmente abandonada.

escala, são as atividades da região. Contudo, essas ações já se apresentam pulverizadas em pequenos nichos em meio às grandes plantações de eucaliptos.

A chegada do eucalipto nos inicio dos anos 1990 foi vista como uma solução para o problema do cacau. Em 1994 foi divulgada a notícia em meios de comunicação que o eucalipto produziria 12 mil empregos. Pessoas de cidades baianas além dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo se deslocaram para a região. A Veracel, empresa que encabeça o empreendimento, chegou a gerar em 2004, 11,5 mil empregos, sendo que mais de 80% desse total só nas obras de construção da fábrica iniciada em 2003 e inaugurada em 2005. Com o término das obras, o número de pessoas trabalhando no investimento caiu. Atualmente, de acordo com dados da própria Veracel, a fábrica gera 739 empregos diretos e 3.150 indiretos, números bem distantes dos 12 mil empregos noticiados em 1994.

Abandono

Asfalto que beneficia a Veracel mais em compensação detonou as pequenas povoações com é caso de Brejinhos e Petrolândia.

A situação no campo é de evasão. O clima em algumas povoações da zona rural de Belmonte é de desânimo. As pessoas reclamam da falta de infraestrutura como é o caso de Brejinhos. O lugarejo localizado às margens da estrada que liga a fábrica da Veracel ao terminal marítimo que escoa a produção até o Espírito Santo está sendo aos poucos abandonada pelos moradores. Não existe telefone, nem sinal para celular. Apesar de existir rede de energia o abastecimento de água do local não funciona. Os poços que deveriam fornecer água foram desativados, segundo moradores, a cerca de dois anos. Eles alegam que a prefeitura deixou de pagar a conta de energia que abastecia a bomba dos poços. Para a aposentada Maria da Conceição, 81, o mais grave é estar longe de centros médicos. "Eu quero ir embora, aqui não dá pra mim, eu to longe de hospital e de posto" detalha a senhora. Os moradores contam com a solidariedade de alguns fazendeiros que disponibilizam suas fontes.

Brejinhos está localizada num antigo e importante entreposto comercial. O

Carretas que transportam celulose para o porto da Veracel, trafegam diuturnamente.

lugar é mais antigo que o distrito de Barrolândia, que data de mais de 30 anos de existência. De lá parte uma estrada em direção ao rio Jequitinhonha utilizada na época áurea do cacau para o escoamento da produção. O aposentado e agora dono de uma modesta mercearia no lugarejo, Clovis Nunes da Silva, 62, lembra com saudosismo aquela época. "Isso aqui era bastante movimentado, mas os moradores foram embora e eu também tô querendo ir". A única estrutura pública municipal existente é um grupo escolar, inaugurado recentemente. A escola possui apenas uma turma que funciona até às 12:00. Mesmo assim, vários moradores já deslocaram seus filhos para Belmonte ou cidade vizinhas. O agricultor Rosivaldo Oliveira da Silva, 38, é um desses casos. Pai de uma garota de 18 anos preferiu enviar a filha para Santa Cruz de Cabrália, onde além de estudar ela já trabalha. "Não vejo futuro para minha filha aqui" lamenta. Ele ainda trabalha com cacau, mas reclama dos preços e da vassoura de bruxa. Rosivaldo e seus companheiros de trabalho também não recebem nenhum tipo de auxilio técnico em relação ao manejo do cacau.

Igerjinha de Brejinhos totalmente abandonada nem os santos  exsitem mais.

O povoado chegou a reagir durante a fase de plantio do eucalipto em 2000, na época várias pessoas foram empregadas, movimentando o lugar. A euforia durou pouco, assim que o plantio das árvores terminou em 2002 a situação pirou, é o que afirma os moradores. No local, agora cercado pelo eucaliptal, já existem algumas placas de venda de imóveis. Uma casa que na época recebeu oferta de compra de R$ 12 mil reais hoje é oferecida por R$ 5 mil. Todos que colocaram suas propriedades à venda reclamam da dificuldade em achar comprador.

A situação não é diferente na localidade vizinha, Petrolândia. a diferença é que a precariedade é mais visível. O local possui poucas casas de alvenaria, boa parte das habitações são barracões improvisados. Se serviços básicos e essenciais como água tratada e postos de saúde até hoje não chegaram a esses locais, salta aos olhos propagandas eleitorais recentes espalhadas pelas casas. Já o silêncio em Brejinhos e Pretolândia só é quebrado pelo vai-e-vem das enormes carretas levando celulose até o terminal marítimo. O alardeado progresso do eucalipto – tão perto e tão longe.

"...se plantando, tudo dá"

Belmonte é um dos oito municípios do Extremo Sul onde a monocultura do

Casebres de taipa que teimam em resistir ao avanço do eucalipto mais não aguentarão por muito tempo.

eucalipto se instalou. É também nessa região que está a fábrica da Veracel, empresa que produz a celulose a partir do eucalipto. A Veracel é de propriedade de duas outras empresas do setor – a Stora Enso e a Aracruz, ambas possuem 50% de participação. Entre os questionamentos em torno da implantação do eucalipto e da fábrica estão o alto valor investido pelo Governo Federal. Através de um financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes) foi repassado a Veracel R$ 1,5 bilhão de reais. O Bndes é acionista da Aracruz, detentor de 12,5% das ações. Figura ainda como queixa e motivo para reflexão o baixo retorno econômico e social para a região. Mas, se a população reclama, o investimento se desenvolve a todo vapor. Em 2005, quando a fábrica entrou em funcionamento foram vendidas 392 mil toneladas de celulose no mercado externo, venda que gerou uma receita líquida de R$ 323,5 milhões de reais.

Clima favorável, solo adequado, chuvas na medida certa e sol o ano inteiro,

Luciana Oliveira entrevista um antigo morador do entorno do povoado que fala da situação de penuria em que vievm depois da chegada do eucalipto.

além de uma topografia plana, fez da região Extremo Sul da Bahia o lugar ideal para o eucalipto. Todas essas características vantajosas presenteadas pela natureza foram temperadas ainda pela existência de mão-de-obra e terras baratas. "Nesta terra, em se plantando, tudo dá". A frase de Pero Vaz de Caminha não foi utilizada à toa em sua famosa carta ao rei de Portugal na época do descobrimento. O eucalipto, designação dada a várias espécies vegetais do gênero Eucalyptus, apesar de ser originário do território australiano está se adaptando muito bem em nossa região. As plantações espalhadas em oito municípios do Extremo Sul estão mudando o panorama geográfico, econômico e social da região. Segundo dados da Veracel são 74.440 hectares de área plantada num universo de 172.982 hectares de área total. A questão à espera de resposta não é sobre o irrefutável sucesso do empreendimento, mas sobre o futuro das pessoas de Brejinhos, Petrolândia e de tantos outros lugares do Extremo Sul que passam por problemas similares. Qual o papel e importância dessas pessoas para os governos e para a Veracel?

Foram parceiros na execução desta matéria: Dr. José Henrique Barbosa, a repórter Luciana Oliveira e o poeta, compositor e escritor de novelas Joilson Souza Silva (Joilson do PT).


Fotos: Urbino Brito

Fonte/Autor: Luciana Oliveira

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