
Ele proprietário de cinema e tipografia, um dos responsáveis pela ampliação e modernização da Santa Casa de Misericórdia e funcionário exemplar da Companhia Valença Industrial (CVI). Por todas essas contribuições para a sociedade daquela cidade Rubens Petit Ferreira recebeu justa homenagem póstuma na última quinta-feira (10). A avenida que liga a Praça da Bandeira ao bairro do Tento recebeu seu nome. Ela segue pela rota fluvial, já que está às margens do rio Una e encontra-se com a rua Júlia Petit, nome de sua mãe. A homenagem é fruto de um projeto de lei municipal de autoria do vereador Raimundo Magalhães. Já a solenidade contou com a presença dos familiares do homenageado, entre eles um dos netos, o secretário de Justiça do Estado, Sérgio Sanches Ferreira; do prefeito de Valença, Cláudio Queiroz; de vereadores e populares.
Para entender o motivo da homenagem é preciso mergulhar na história de Valença,
principalmente no período que compreende a primeira metade do século XX. A chegada de imigrantes europeus desde o final do século XIX trouxe impulso para a região que nas décadas seguintes viu setores como a agricultura, o comércio e a industria têxtil se desenvolverem. A conseqüência foi um crescimento urbano seguido da assimilação rápida dos novos tempos. Rubens Petit não só presenciou esse período como foi ator dessas transformações.
Da infância difícil a gerencia de fábrica
Rubens Petit Ferreira nasceu em Salvador em 1900, mas se mudou para Valença quando sua mãe, Dona Júlia Petit, ao ficar viúva se muda para a cidade para dar aulas. O ainda adolescente Rubens começa a trabalhar na Companhia Valença Industrial (CVI) aos 14 anos como aprendiz de mecânico. Mais tarde acaba realizando um curso de engenharia mecânica por correspondência e torna-se técnico. Ele se casa aos 23 anos com Mariá Lacerda Santos com quem tem três filhos: Railda Ferreira Santos, Maria das Dores Ferreira Amorim e Renato Santos Ferreira.
De posse de seu diploma o jovem Rubens retorna a Salvador, onde permanece por pouco tempo. Ele regressa a Valença a convite da CVI. Rubens não só aceitou o convite como fez jus ao seu cargo. Ele atuou também em outras áreas da cidade a exemplo do Cine Valença, que assumiu até meados da década de 1950. O cinema funcionava no prédio do Teatro Municipal e durante as férias escolares era comandado pelo filho, na época o jovem Renato. Rubens sempre se mostrou um homem de visão moderna, foi assim que acabou fundando a segunda tipografia da cidade, chamada O Guarani. Todos esses feitos aconteceram na primeira metade do século XX. Ele mais do que ninguém em suas ações foi reflexo de uma época de desenvolvimento da cidade.
Mas, talvez a obra de maior envergadura e que perdura até hoje como facilitador da vida dos valencianos seja a reforma e ampliação da Santa Casa de Misericórdia. Todo um complexo em concreto armado foi erguido levando em consideração o bem-estar da população. A obra foi uma parceria entre Rubens e Dr. Raoul Malbouisson, na época gerente geral da CVI.
Se na esfera pública Rubens se consolidava como um benfeitor, em sua carreira não foi diferente. Ele chegou ao cargo mais alto da CVI, o de gerente geral, substituindo seu amigo e parceiro após falecimento, Dr. Raoul.
Rubens Petit Ferreira deixou Valença em 1955 para residir em Salvador por problemas de
saúde. Mesmo distante seu vínculo com a cidade jamais se desfez e seus feitos são lembrados até hoje por familiares, amigos e pessoas que usufruem deles. O homem que atravessou praticamente todo o século XX acompanhando as novas descobertas, as mudanças de comportamento, duas guerras mundiais, o nascimento de filhos e netos apesar de ter realizado muito deixou como herança uma vida inteira de doação, seja à família, aos amigos ou ao próximo.
Pioneirismo
A Companhia Valença Industrial (CVI) é a fábrica têxtil mais antiga do Brasil. Ela foi fundada em 1844 e ainda está em atividade até hoje. A empresa surgiu já de forma diferenciada, já que conviveu por 44 anos com o regime escravocrata sem jamais utilizar mão de obra escrava. A CVI sempre foi pioneira. Capacitação dos trabalhadores, ensino da leitura e escrita e incentivo à arte e à dança no local de trabalho já eram práticas comuns nos primeiros anos da fábrica, ainda durante o período imperial do Brasil. Prova disso é o Prédio da Recreativa que apesar do tempo ainda deixa transparecer os tempos áureos.
Durante o Império, a Companhia Valença chegou a responder por 35% de todo o tecido fabricado no Brasil. Sua importância era tanta, que um dos visitantes freqüentes e ilustres era D. Pedro II. Já na fase republicana a empresa continuou a se destacar na construção da história de Valença.

Da esq/direita Dr. Renato Sanches Ferreira (Secretário de Estado de Justiça da Bahia), o prefeito de Valença, Cláudio Queiroz, e o Sr. Renato Ferreira, ao fundo acima a placa com o nome do Sr. Rubem Petit, pai do Dr. Renato.
Fotos: Urbino Brito
Fonte/Autor: Luciana Oliveira