Água de pote

Por: NossaCara.com
08/08/2006 - 18:51:00

Com um olhar simples e de riso fácil Dona Dagmar passaria desapercebida como qualquer mulher do município de Belmonte. Mas, ao chegar em seu local de trabalho, uma mescla de galpão e olaria, nos damos conta da criatividade da artista que vem desenvolvendo formas peculiares em seu trabalho. Dagmar Muniz de Oliveira, ou Dona Dagmar, 66 anos e quarenta dedicados ao trabalho com argila ou popularmente barro, recebeu o nossacara.com em seu local de trabalho no Bairro da Visgueira em Belmonte, às margens do Rio Jequitinhonha.


Da necessidade à profissão

   
Sua história de artesã começou a quarenta anos atrás quando ela precisou de um vaso para água, popularmente conhecido como “moringa”. Ela mesma produziu o artefato, já que seu esposo na época possuía um olaria. Essa história está contada em um dos muitos vasos gigantes produzidos por ela. É como um “vaso biografia”. As palavras inscritas no imenso pote contam com simplicidade a história dessa mulher que já está formando aprendizes. Filhos e netos também estão seguindo os passos da matriarca. Eles produzem artefatos em argila.

   
A técnica utilizada é a do rolo. Uma forma antiga e de origem indígena. Através de vários rolos de argila ela vai levantando e moldando com a própria mão o vaso ou qualquer outra estrutura a exemplo de luminárias, esculturas, barcos e até colares. “Não sou descendente de índios, mas aprendi assim e faço qualquer coisa” detalha a artesã. Por outro lado ela não abandonou a atividade do marido. Sua pequena empresa também produz tijolos e telhas.


Bebedouro de guaiamu

   
Belmonte no Extremo Sul é conhecida como a capital do guaiamu. Há alguns anos a cidade ganhou uma escultura de um guaiamu gigante que virou atração turística. A obra acabou inspirando Dona Dagmar a elaborar um bebedouro para o crustáceo. Foi assim que o primeiro pote gigante surgiu. “Um guaiamu daquele tamanho precisava de um bebedouro grande” brinca.

   
Hoje ela fabrica em média 70 vasos por mês que são vendidos na região e utilizados como objetos de decoração. Cada um custa em torno de R$ 1.000,00 e eles medem até 2,45 metros de altura depois de queimados. A produção contínua é explicada pela inquietude criativa perceptível na artesã. Durante toda a entrevista ela não parou de mexer com o barro. Dona Dagmar tem também mercados fora da Bahia e suas peças já são conhecidas na Europa.


Produção 100% artesanal

   
Outra particularidade do artesanato produzido é a queima. Ela não possui forno e a queima das peças é feita de forma também artesanal e itinerante, como os índios faziam. Todas essas características só conferem mais valor artístico folclórico e beleza aos artefatos. Além da decoração de interiores o interesse e valorização pelo paisagismo tem despertado interesse pelas obras da artesã.

   
Apesar de se considerar autodidata ela não nega que em muitos casos as idéias são colhidas em revistas ou mesmo nas famosas telenovelas. Outra inovação é a fabricação de instrumentos musicais de argila. “Os primeiros foram por encomenda, fiquei com medo de não acertar” detalha. Mas a primeira experiência deu tão certo que as encomendas continuam. A artesão tem participado de vários projetos e já teve seus trabalhos expostos em diversas publicações.

   
Quando questionada sobre tanta criatividade e vitalidade, Dona Dagmar acorda às 5:30 horas da madrugada, ela aconselha. “O trabalho rejuvenesce”. A artesã ainda ensinou um receitinha da juventude: bata no liquidificador pepino e cenoura e misture com argila; depois é só fazer uma máscara facial. Não é à toa que aos 66 anos ela ainda guarda uma energia estampada não só na quantidade das obras, mas também na qualidade.

Fotos: Urbino Brito
     

Fonte/Autor: Luciana Oliveira

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