
A monocultura do eucalipto para a produção de celulose começou a ser implantada no Extremo Sul da Bahia no início da década de 1990. Às plantações seguiu-se a construção da fábrica, em funcionamento desde 2005. A fábrica, um empreendimento da Veracel Celulose, de propriedade de duas outras empresas, a Aracruz Celulose e a Stora Enzo tem capacidade para produzir 900 mil toneladas de celulose por ano. Toda a produção destina-se para exportação. O investimento na construção e infra-estrutura foi de US$ 1,2 bilhão de dólares, sendo que R$ 1,5 bilhão de reais foi financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que inclusive é acionista em 12,5% das ações da Aracruz, detentora de 50% das ações da Veracel Celulose.

Sala de controle das atividades da fábrica onde uma pessoa, em média, comanda cada processo.
Impactos socioeconômicos da monocultura
O Centro de Pesquisas e Estudos para o Desenvolvimento do Extremo da Bahia (Cepedes), uma Ong com sede em Eunápolis e 15 anos de existência realizou uma pesquisa sobre os impactos negativos da monocultura do eucalipto e produção de celulose no Extremo Sul do estado. Foram levados em consideração dados referentes às condições de vida da população e os aspectos econômicos e sociais. A pesquisa utilizou dados do IBGE, dos governos estadual e federal, das próprias empresas de celulose e do Cepedes além de ter coletado informações nas comunidades pesquisadas. Todo o projeto foi coordenado pelo cientista social Cristiano Raykil.
Segundo a pesquisa, com base em dados do IBGE, censo de 2000, entre os anos de 1991 e 2002 a população rural em Eunápolis caiu de 9,92% para 5,89%. Uma redução de 59,37%. Conforme Cristiano Raikil esse valor é muito alto em relação à média nacional, que é de apenas 28%. Pequenos agricultores, peões, vaqueiros e toda uma classe que vivia no campo acabaram inchando bairros de periferia de cidades não só como Eunápolis, mas também Porto Seguro.
Por outro lado, muitos trabalhadores de outras regiões foram atraídos pela esperança de emprego seja nas plantações ou na fábrica. Em 1994 foi divulgada a notícia em meios de comunicação que o eucalipto produziria 12 mil empregos. Pessoas de cidades baianas além dos estados de Minas gerais e Espírito Santo se deslocaram para a região. A empresa chegou a gerar em 2004, 11,5 empregos, sendo que mais de 80% desse total só nas obras de construção. Com o término das obras, o número de pessoas trabalhando no investimento caiu.

Linha de produção em funcionamento-a presença de funcionários é escassa.
O Extremo Sul, segundo a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), em 2004 estava entre as cinco regiões mais produtivas da Bahia, por conta de sua diversificação produtiva. Raykil citando alguns autores na pesquisa vê esse posto comprometido. Ele informa que para cada 183 hectares de eucalipto plantado é gerado um emprego enquanto que em outras culturas como a do café, gera-se um emprego por hectare. O grande questionamento do cientista e também do Cepedes é por que não se investiu em outras atividades.
Por outro lado a pesquisa também aponta estatísticas da educação. Por exemplo, 45% da população de Eunápolis, que deveria estar na escola na faixa de
O subdesenvolvimento da região não pode ser apontado como responsabilidade da Veracel
Celulose, mas por outro lado, a população do Extremo Sul questiona o valor investido pelo governo federal através do BNDES no investimento e o pouco retorno econômico gerado para a região até agora.


Processo de empilhamento das placas de celulose. Única fase em se comprovou a presença de funcionários, mesmo parca.
Números e história
Os primeiros investimentos ainda em 1991 para implantação da monocultura do eucalipto foram da empresa Veracruz Florestal como subsidiária da Odebrecht. Em 1997 a Odebrecht se associa à empresa sueca, Stora. A entrada da Aracruz só ocorreu em 2000. Mas no ano anterior ocorre a fusão entre as empresas Stora (Suécia) e Enso (Finlândia), dando origem a Stora Enso, que mais tarde, em 2003 com saída da Odebrecht, vai se aliar a Aracruz no investimento. Essas duas últimas possuem participação de 50% cada uma na Veracel, razão social adotada em 1998.
Em 2003 tem início a construção da fábrica. O maior número de pessoas empregadas na construção se dá em outubro do ano seguinte, foram 9,3 mil pessoas. A construção bateu recorde já que a fábrica entrou em operação em 2005, apenas 22 meses depois do início das obras. Quase dois meses depois o índice de qualidade previsto para a celulose era atingido e ainda no mesmo ano a fábrica atingiu também a produção média diária pretendida no projeto, 2.548 toneladas de celulose por dia. (Fonte: Veracel)
A euforia criada pelas obras de construção cedeu lugar a números mais modestos. Atualmente, de acordo com dados da própria Veracel, a fábrica gera 739 empregos diretos e 3.150 indiretos, números bem distantes dos 12 mil empregos noticiados em 1994. As linhas de produção, salas de controles e preparo da madeira do eucalipto e posteriormente celulose são todas manejadas por poucas pessoas, fato constatado em visita à fábrica.
Fotos: Urbino Brito
Fonte/Autor: Luciana Oliveira