Café arábica oscila forte, mas mantém preço acima de R$ 1,7 mil por saca

Por: Redação
11/08/2026 - 10:14:25

Mercado enfrenta pressão da colheita e sequência de quedas, mas clima, qualidade dos grãos e estoques globais ainda dão sustentação às cotações

Por: Urbino Brito

O mercado brasileiro de café arábica atravessa um período de forte volatilidade. Entre 16 de julho e 5 de agosto, o Indicador CEPEA/ESALQ mostrou uma trajetória marcada por altas, quedas acentuadas e rápidas recuperações, mantendo a saca de 60 quilos próxima — e acima — da faixa de R$ 1,7 mil.

Em 16 de julho, o arábica estava cotado a R$ 1.706,75 por saca. No dia 5 de agosto, o indicador chegou a R$ 1.730,24, representando valorização de aproximadamente 1,38% no período. O número, aparentemente modesto, esconde uma movimentação bastante intensa no mercado.

O melhor exemplo dessa instabilidade ocorreu na segunda metade de julho. Depois de atingir R$ 1.753,28 em 20 de julho, o café entrou em uma sequência de quatro pregões consecutivos de baixa.

Entre 21 e 24 de julho, o indicador caiu de R$ 1.732,75 para R$ 1.676,28, uma redução de aproximadamente 3,26% em apenas quatro sessões. A cotação do dia 24 também representou o ponto mais baixo observado nesse intervalo.

A queda, entretanto, não significou uma mudança definitiva de tendência. Nos pregões seguintes, o mercado voltou a reagir, mostrando justamente uma das principais características da cafeicultura neste momento: alta volatilidade e dificuldade de estabelecer uma direção única para os preços.

Colheita exerce pressão sobre o mercado

Um dos principais fatores que ajudam a explicar esse comportamento é o avanço da colheita brasileira da safra 2026/27.

O aumento da disponibilidade de café tende a pressionar os preços, principalmente quando produtores e compradores passam a trabalhar com maior oferta física. O próprio Cepea destacou que o ritmo da colheita ganhou força em julho, embora ainda permanecesse abaixo do observado em anos anteriores para o mesmo período.

Essa combinação cria uma espécie de cabo de guerra no mercado.

De um lado, a entrada da nova safra aumenta a oferta e coloca pressão sobre as cotações. De outro, problemas climáticos registrados durante o ciclo, preocupações com a qualidade dos grãos e estoques globais ainda apertados impedem que os preços simplesmente despenquem.

O Cepea já havia apontado, em julho, que as preocupações com clima, atraso da colheita e qualidade dos grãos estavam elevando a volatilidade do arábica, enquanto os fundamentos de sustentação permaneciam presentes.

Quatro dias de queda mostram a força da pressão vendedora

A sequência observada entre 21 e 24 de julho merece atenção especial.

Foram quatro sessões seguidas de baixa:

  • 21/07: R$ 1.732,75
  • 22/07: R$ 1.701,33
  • 23/07: R$ 1.692,59
  • 24/07: R$ 1.676,28

Nesse intervalo, a perda foi de R$ 56,47 por saca.

Para o produtor, esse movimento serve como um alerta. Em um mercado tão volátil, uma diferença de algumas semanas — ou mesmo de alguns dias — pode representar dezenas de reais por saca na hora da comercialização.

Ao mesmo tempo, vender toda a produção diante de uma sequência de quedas também pode ser uma decisão arriscada, principalmente porque o mercado continua sensível às condições climáticas e às perspectivas de oferta.

Agosto começa com recuperação

Depois da forte correção de julho, o início de agosto mostrou recuperação.

Em 3 de agosto, o indicador estava em R$ 1.712,28. No dia seguinte avançou para R$ 1.729,84 e, em 5 de agosto, chegou a R$ 1.730,24, com alta diária de 0,02%.

Foi justamente esse último número que apareceu na atualização do Brasil 61: o café arábica abriu a quinta-feira (6) negociado a R$ 1.730,24, enquanto o robusta registrava valorização de 1,53%, alcançando R$ 1.111,86 por saca.

Portanto, embora o arábica tenha sofrido uma sequência expressiva de quedas em julho, o mercado conseguiu recuperar parte das perdas no início de agosto.

O que esperar daqui para frente?

O cenário continua exigindo cautela.

A tendência de curto prazo deverá continuar sendo influenciada principalmente pelo avanço da colheita brasileira, pelo volume efetivamente disponibilizado pelos produtores, pela qualidade do café da nova safra e pelo comportamento das cotações internacionais.

Existe uma aparente contradição no mercado: a expectativa de uma safra brasileira maior favorece a queda dos preços, mas os problemas climáticos e as dúvidas sobre qualidade ajudam a limitar essa desvalorização.

Além disso, o mercado internacional ainda carrega a preocupação com estoques relativamente apertados de café arábica. O Cepea destacou que a nova safra brasileira é aguardada justamente porque uma produção maior poderia ajudar na recomposição dos estoques globais.

Isso significa que o produtor não deve olhar apenas para a cotação de um único dia.

A sequência recente mostra que o café pode perder mais de R$ 50 por saca em apenas quatro pregões e, pouco depois, recuperar boa parte do terreno perdido. Mais do que uma tendência clara de alta ou baixa, o que o mercado está apresentando neste momento é volatilidade.

Arábica x robusta

O comportamento das duas variedades também chama atenção.

Na atualização de 6 de agosto, enquanto o arábica avançava apenas 0,02%, o robusta registrava alta de 1,53%, chegando a R$ 1.111,86 por saca.

A diferença de comportamento está relacionada aos fundamentos próprios de cada mercado. O Cepea vinha observando maior firmeza do robusta, entre outros fatores, diante das expectativas de uma produção 2026/27 menor do que inicialmente projetada.

Análise para o produtor

Para o cafeicultor, o momento recomenda estratégia, e não decisões tomadas pela emoção.

O preço de R$ 1.730 por saca ainda representa um patamar elevado em comparação com períodos anteriores, mas a trajetória recente mostra que o mercado pode mudar rapidamente de direção.

Quem possui café de boa qualidade pode acompanhar atentamente o comportamento das cotações antes de definir novas vendas. Já quem precisa fazer caixa deve considerar não apenas a possibilidade de uma alta futura, mas também o risco de novas correções provocadas pelo avanço da oferta.

Uma estratégia de comercialização escalonada pode ajudar a reduzir o risco de concentrar toda a venda em um único momento.

O café continua valendo atenção

A principal mensagem dos últimos pregões é clara: o café não está seguindo uma linha reta.

Saiu de R$ 1.706,75 em 16 de julho, chegou a R$ 1.753,28 quatro dias depois, caiu para R$ 1.676,28 no dia 24 e voltou a R$ 1.730,24 no início de agosto.

Em pouco mais de duas semanas, o mercado mostrou praticamente todas as características de uma commodity pressionada por forças opostas: oferta crescente, colheita avançando, clima preocupante, qualidade incerta e estoques globais ainda restritos.

Para o produtor, acompanhar diariamente o mercado deixou de ser apenas uma questão de saber quanto vale a saca. É uma ferramenta fundamental para decidir quando vender, quanto vender e quanto esperar.

Fonte: CEPEA/ESALQ e Brasil 61.

 

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