Exclusivo: a história por trás da foto sobre o pão ‘nascer’ na lavoura

Por: Canal Rural
02/10/2022 - 16:04:28

Imagem faz parte de projeto idealizado por mestra em agronomia, que se propôs a mostrar a realidade do meio rural

Por: Anderson Scardoelli, de São Paulo
https://www.canalrural.com.br/

Uma foto que se propõe a mostrar que, graças ao plantio do trigo, o pão “nasce” na terra — e não na padaria. Feito em plena lavoura, o registro mostra uma moça segurando um cartaz com frase referente à origem do alimento tão comum no Brasil e no mundo.

Valorizando o “orgulho de ser agro”, a imagem ganhou vez nas redes sociais. Viralizou. Somente na fan page Quedas do Iguaçu, a postagem a respeito, datada de 29 de agosto, soma mais de 512 mil curtidas, 43 mil compartilhamentos e 25 mil comentários.

Boa parte do público enalteceu o fato de uma jovem se propor a reforçar que sem a semeadura do trigo não há como o tradicional pãozinho ser servido nas padarias espalhadas mundo afora. Houve, porém, quem questionasse a veracidade da foto em questão.

“E é essa princesa do agro que planta e colhe, ou são os trabalhadores rurais?”, questionou um internauta, ao se referir à moça que aparece erguendo o cartaz com os dizeres “tu sabia que o pão não ‘nasce’ na padaria? Ele ‘nasce’ aqui [no campo].”

Mestra em agronomia protagoniza imagem

A “princesa” que despertou a ironia de certas pessoas planta e colhe, sim. Mais do que isso: faz parte da quinta geração de uma família que se dedica às culturas de soja, milho e trigo em propriedade rural localizada em Não-Me-Toque, município da região do Planalto Médio, no interior do Rio Grande do Sul.

Criada na lavoura de Não-Me-Toque, Raquel Guadagnin é a autora da foto sobre o “nascimento” do pão. Além de plantar e colher, ela estudou para isso. Graduada em agronomia, ela concluiu neste ano o mestrado em produção e proteção de plantas, pela Universidade de Passo Fundo (UPF).

“Fui ensinada desde criança a amar as plantas, a cuidar da terra, admirar a natureza e conviver em harmonia com ela” — Raquel Guadagnin

“Mas muito mais do que aprender os manejos necessários para produção agrícola, eu fui ensinada desde criança a amar as plantas, a cuidar da terra, admirar a natureza e conviver em harmonia com ela. Tudo isso me proporcionou a valorização do alimento que nos nutre todo santo dia”, comenta Raquel em entrevista ao Canal Rural.

Foto sobre pão faz parte de projeto

No contato com a reportagem do Canal Rural, Raquel pontua que a foto não foi mero acaso. Ela conta que o registro faz parte de seu projeto de comunicação digital, pelo qual tem por objetivo central mostrar o dia a dia de quem está na linha de frente da agricultura.

Ação que tem dado certo. A própria Raquel conquistou o status de influenciadora digital. Somente no Instagram, aproxima-se dos 32 mil seguidores. Apesar de ganhar vez nas redes sociais como agroinfluencer, a mestra na área agronômica revela que não esperava viralizar justamente por causa da foto sobre o “nascimento” do pão. “Nem coloquei o meu @ nela”, conta.

Mas uma vez com a foto viralizada, ela detalha como surgiu a ideia de fazer tal registro. Além disso, explica os seus propósitos no âmbito da comunicação em favor do agro e, como produtora rural, avalia quais são os desafios de se trabalhar no meio agrícola.

10 perguntas para a mestra em agronomia Raquel Guadagnin

Confira, abaixo, os principais pontos da entrevista exclusiva do Canal Rural com a mestra em agronomia — e agroinfluencer — Raquel Guadagnin:

1 — Quando, onde e por qual razão surgiu a ideia de mostrar que, graças ao plantio do trigo, o pão nasce na lavoura (e não na padaria)?

Como sou filha de produtores rurais, tenho vivência no campo e da agricultura desde a infância, morei na fazenda até os 14 anos. Com isso, sempre acompanhei o passo a passo de tudo que acontecia por lá, o que me proporcionou acompanhar de perto como é o cultivo das culturas de soja, milho e trigo.

Mas muito mais do que aprender os manejos necessários para produção agrícola, fui ensinada desde criança a amar as plantas, a cuidar da terra, admirar a natureza e conviver em harmonia com ela. Tudo isso me proporcionou a valorização do alimento que nos nutre todo santo dia.

Senti que precisava comunicar de alguma forma o campo para a cidade

E ao criar conteúdo no meio digital, comecei a perceber que muitas pessoas não tinham esse conhecimento da origem do nosso alimento. Aí, um certo dia, eu estava na fazenda e era justamente na época em que estava ocorrendo a semeadura do trigo. Senti que precisava comunicar de alguma forma o campo para a cidade.

Comunicar que o início do processo produtivo do pão começava ali, ao lançarmos a semente ao solo. Comunicar que a partir desse trabalho iniciava-se um novo ciclo para a produção dos grãos de trigo, que então dariam origem à farinha e depois ao pão, ao biscoito, à massa, à cerveja e a diversos outros produtos. Assim, a gente pode perceber que, por meio de uma simples foto, há uma grande história.

2 — Somente na fan page Quedas do Iguaçu, a foto onde você aparece no campo com o cartaz sobre o “nascimento” do pão alcançou mais de 500 mil curtidas. Você esperava que tal ação poderia viralizar dessa forma?

Eu já estava produzindo conteúdo há algum tempo, dedicando-me a isso para comunicar o agro. Sabia que algum dia isso iria acontecer, mas de forma alguma pensei que essa seria a foto que iria viralizar, tanto é que eu nem coloquei o meu @ nela. Viralizou e as pessoas nem sabiam que era eu quem tinha produzido.

3 — Diante da repercussão da foto, além de impulsionar o “Orgulho de Ser Agro”, há, por outro lado, algumas críticas e “piadinhas”. Teve gente, por exemplo, que sugeriu que você não trabalharia no ambiente rural. Acredita que o machismo também é algo a se combater dentro do agro?

Não podemos ignorar que existam pessoas que praticam esse ato de maldade chamado machismo. Porém, no momento em que destilamos nosso ódio e a nossa raiva ao próximo, não estamos falando daquela pessoa em si, mas estamos falando de nós mesmos, do que há dentro de nós.

Sendo assim, só há uma forma de combater o machismo e toda a maldade: olhando para si, olhando para dentro, olhando para sua vida, sua história, suas mazelas. Somente assim será possível termos um mundo melhor, quando cada um cuidar de si mesmo e não do outro.

4 — Como mestra na área de agronomia, o que você tem a dizer para quem sugere que você, porventura, não trabalharia no campo?

Tenho consciência dos meus valores e de toda a minha história. Sendo assim, não preciso provar nada a quem está ali somente para acreditar na sua “verdade” e destilar o seu ódio. Eu tenho plena consciência de quem eu sou. E isso basta! No entanto, sugiro para que essas pessoas busquem o autoconhecimento e olhar para dentro de si enquanto está em tempo, pois raiva e ódio podem ser fatais.

5 — Justamente nesse ambiente acadêmico: quais fatores te levaram a decidir cursar agronomia?

Como desde a infância eu tive contato com a natureza e acompanhei meus pais na lida do dia a dia no campo, plantando, cuidando e colhendo as plantas, sempre tive muita curiosidade de saber como tudo funcionava, o invisível aos nossos olhos. Então, quando chegou o momento de escolher o curso de graduação, não tive dúvidas de que eu queria aprender mais sobre as plantas, sobre os insetos, sobre a terra e sobre a natureza.

6 — No Instagram, onde se aproxima dos 32 mil seguidores, você se apresenta como alguém que atua em prol da “comunicação no agro”. Como tem sido essa missão?

Para mim, a missão de comunicar o agro requer uma base forte de estudo, dedicação e vivência prática. Assim, ao longo do caminho vai se construindo uma comunicação cuja base é a verdade.

“O meu propósito de comunicação é mostrar a vivência prática e o dia a dia no campo”

Nenhuma missão é fácil, não nascemos prontos e muitas vezes não estamos preparados para as adversidades que encontramos no caminho. Por isso é necessário muita resiliência e sabedoria para fazer o melhor com o que temos e, dessa forma, seguimos por um propósito: comunicar o nosso agro.

7 — Como você define a sua atividade de comunicadora e influenciadora digital sobre o tema agro?

O meu propósito não é utilizar o meu perfil para combater e debater falsas narrativas sobre o agro. O meu propósito de comunicação é mostrar a vivência prática e o dia a dia no campo. Trazendo a verdade do que acontece nos bastidores, a verdade do que acontece lá na lavoura, a realidade do produtor rural. Tudo isso com o objetivo de levar conhecimento às pessoas sobre o nosso setor por meio do ambiente digital.

8 — Em sua visão, em quais pontos as redes sociais podem ser usadas para expor as realizações do setor da agropecuária brasileira?

Penso que não é uma e nem duas pessoas que irão mudar a visão do mundo comunicando o agro, mas sim uma corrente de pessoas. No caso de nós jovens, já começamos essa trajetória, com muito amor e orgulho das nossas raízes, com cada um comunicando a sua realidade no digital e, consequentemente, tornando essa corrente cada vez maior e mais forte.

9 — Recentemente, você abriu inscrições para o seu primeiro workshop de comunicação agro? Qual o objetivo com essa atividade? Acredita que poderá ajudar produtores rurais a se comunicarem melhor e, assim, também possam ganhar protagonismo na luta contra falsas narrativas disseminadas sobre o setor?

O objetivo do meu workshop de comunicação do agro é mostrar às pessoas a importância da comunicação. Mostrar que a comunicação não é somente criar conteúdos nas redes sociais. A comunicação está em tudo, inclusive lá na fazenda. A comunicação é a base da nossa existência. Estamos comunicando quem somos o tempo todo.

E por que não unirmos a comunicação, que começa desde o momento em que a gente vem ao mundo, com o alimento que nos nutre todo santo dia? Com isso, vamos criando a nossa corrente com uma base sólida e forte para comunicar com muito amor e orgulho as nossas raízes, o nosso agro brasileiro.

10 — E qual a mensagem que você deixaria para quem, por trás de uma tela de computador ou celular, critica o trabalho de quem movimenta o agronegócio brasileiro?

“Deveríamos olhar demoradamente para nós próprios antes de pensarmos em julgar os outros” – Molière.

 

 

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